Tenho tanta saudade de mim...

Sexta-feira, Janeiro 20, 2012

O velho que secava dinheiro

No meio do fim do mundo, socada num pé de serra, erguida sobre uma calçada de pedra, paredes de taipa, rebocadas com massapê duro secado sob o sol pesado dos trópicos, jazia a casa dum velho rabugento. Distava a exatas duas léguas doutras residências das redondezas que dispunham igual formato e tinham o mesmo cheiro de couro de vaca curtido que compunham maior parte do mobiliário da época. Logo na varanda, amarrada com relhos de carneiro, dormia uma rede de alvura angelical tecida de linho grosso e com as beiradas que dançavam as rendas do varandão confeccionado pela dança frenética dos bilros que com seu titilar trançavam habilmente nas mãos de dona Zefa, a mulher do seu Manel, o velho da casa.


Aquela casa fedia a tempo. Pendurados na parede maior da sala rústica, iluminadas pela lamparina de querosene, emboloravam a foto de São João Batista menino e o retrato do casal, de preto e branco, com detalhes pintados a mão pelo retratista que passava numa freqüência anual por entre as famílias da região. Geralmente vinha quando sabia do casamento de alguém. Sempre se reservava o dinheiro para este luxo: a moça dava o dote pro marido começar a vida e, separado deste montante, o dinheiro do retratista. Quase como regra, um dogma tão importante quanto o fato de sempre se encaixar a data do casório na época das desobrigas. Afinal, deslocar-se até a cidadezinha pra casar havia de ser caro, melhor mesmo esperar o frade vir até eles.

O velho da casa, apesar de rabugento e aparentemente maltrapilho, com suas calças de costuras reforçadas, blusa de remendos, cara amassada talhada pela dureza do tempo e barba malfeita, era um senhor de posses. Tinha sempre café, açúcar cristal, mel, carne fresca (das vacas que abatia quinzenalmente) e tabaco. Tinha até dinheiro em espécie que guardava bem dobrado numa caixa de lata quadrada que em geral se acondicionava a pólvora. Como a umidade era grande na região e a qualidade do papel não era decente, não raro via-se o velho depositar sobre a calçada de pedras, sob o sol a pino, nota por nota do seu dinheiro, revirando-as sincronicamente para que pudessem evitar o mofo, já que as grandes compras de tecidos, cereais, temperos e outras finezas eram feitas sempre depois do inverno nos mercados da cidade mais perto, uma vez ao ano. Munido de um pedaço de pau, o seu Manel enxotava as galinhas, o cachorro ou mesmo a velha sua senhora caso algum ousasse se aproximar da sua fortuna.

Um certo dia, deitado na rede da varanda, com o chapéu cobrindo parte do rosto, a blusa desabotoada até a metade, com uma perna do lado de fora se balançando devagar, o velho recebeu uma visita. Eram dois garotos, um era filho dum vizinho.

- Seu Manel, o pai disse que era pro senhor mandar um litro de mel!

Num movimento lento, o velho tirou o chapéu da cara, olhou bem a figura dos meninos. O moreninho magricela, cabelo arrepiado vestindo um calção de feltro com um rasgo na barra, descalço e nu da cintura pra cima era o filho do vizinho. O outro, o outro não era dali, era alourado, branco rosado, meio gordinho, trajando calça curta de linho e uma camiseta de cambraia; havia de ser da capital. Seu Manel resmungou, acenou com a cabeça e disse:

- É pro tcho pai adoçar o café, né?

- E esse daí, num é da cidade? Por que não trouxe o açúcar?

- Eu trouxe Seu Manel. É que acabou... Respondeu o menino de fora.

- Pois bem, fale com aquela cascavel véia que ta ali no jirau. Falou o velho apontando para o rumo onde estava a sua senhora. Moravam apenas os dois naquela casa, mas nunca se falavam, exceto quando para trocar insultos e xingamentos.

A velha, gorda e feia, ouvindo as sandices do marido, de imediato retrucou.

- Cascavel é a tua mãe, velho caduco!

Apesar da feiúra e da corpulência da dona Zefa que mal cabia sentada no tamburete da cozinha, era uma senhora doce e generosa. Acho que por tamanha bondade ainda não tinha dado cabo da vida do velho. Ali, enfiada no meio do nada, por veneno na comida do Manel e depois jogar seu corpo ribanceira abaixo não haveria de ser tarefa árdua. Ao contrário, aceitava aquela convivência doentia por talvez acreditar que se vivesse no purgatório em vida, havia de passar direto pro lado do Nosso Senhor Jesus Cristo quando chegasse sua hora. Bem, se ela de fato logrou êxito, até hoje ninguém sabe.

- Vem cá meu fí, deixa esse véi de lado que ele ta ficando é doido. Eu conheço teu pai, lá da cidade. Tome, apanhe o mel, vá logo simbora antes do Manel... Vá, vá.

O menino ainda meio estupefato com a recepção do dono da casa, arregalou os olhos com a ameaça da velha, pegou o litro de cachaça 51 com uma rolha de sabugo de milho metida no gargalo, cheio de mel de tiúba e, junto com o garotinho da vizinhança, saíram correndo terreiro acima até atravessarem o portal da fazenda. O desespero era tamanho que no meio da correria não vira uma pedra, levou uma topada, caiu e o vidro mel, sacando de suas mãos, misturou-se todinho com a areia da estrada.

- O diabo é quem volta na casa daquele véi!

Sujos e desconfiados, os meninos chegaram na casa, não acharam ninguém. Decepcionados com a perda, foram na cacimba, tomaram banho, trocaram a roupa e voltaram pra casa. Sentados contritos na varanda, esperaram o pai do menino chegar da roça. Naquela noite iriam tomar café amargo.

Terça-feira, Dezembro 27, 2011

Carlos e Juliana


“Eu queria ter te conhecido de outro jeito. Queria que tudo tivesse sido diferente. Sempre idealizei meus amores e o mais perfeito de todos nunca imaginei assim. O mais perfeito de todos não teria como cenário nossas brigas e lágrimas. Perdi a paz, perdemos a paz, meu amor. Não vejo mais sentido para que nossas vidas sigam neste paralelo de desejos que jamais se cruzarão, sequer no infinito. Não quero mais isso. Não quero nós. Não quero eu.”

Juliana lia trêmula as palavras marcadas fortemente no papel amarrotado deixado num canto do quarto enquanto ainda podia ouvir o grito de Carlos ao se atirar do décimo segundo andar daquele prédio que havia se tornado nos últimos meses a sede de infernos e abismos para os dois.

Não morreu por amor. Morreu pela frustração de não o ter, pelo desencanto, pelo desassossego. Morreu jovem ao menos. Não experimentou a triste constatação de que todo este fogo (que nasce da juventude), fogo de amor sincero que arde enquanto dura e dura o infinito dum beijo ou da transa boa, não passa de percepções erradas, inocentes e precoces da realidade dos fatos. O tempo é implacável. Nada suporta seu peso sequer os amores eternos. Viram sei lá o que, uma coisa acomodada que se leva com a barriga atribuindo a eles um eufemismo singelo da frigidez e rigidez articular matinal: amizade. Ficam-se velhos, mas amigos, ok? Pior mesmo é quando se ouvem absurdos sobre relações incestuosas dos velhinhos: agora são como dois irmãos! Valei-nos, Pai. A impotência não é a castração da hombridade, da virilidade, mesmo que senil. Afinal, há músculos diversos que podem exercer funções mil, proporcionando os mesmo prazeres do membro rijo, senão mais. Duvidam? Mirem no espelho e abram a boca: ei-la!

Sorte mesmo a de Carlos.

Veio o rabecão do IML e levou as sobras do rapaz suicida. Juliana enxugou as lágrimas (as últimas), trocou a roupa, tomou seu comprimido e dormiu, agora com mais espaço na cama.

Sexta-feira, Dezembro 02, 2011

meus oito anos

A tarde quente
do verão equatorial,
com os sons dos carros,
em uníssono caos,
invadiam a janela, brutal,
ferviam meu corpo nu
coberto de suor, de sal
correndo ligeiro entr'os pelos,
nas curvas, até a virilha e o pau.

São estes os vilões: os dedos!
dantes débeis e ingênuos,
das carícias de pequeno
(desde os oitos anos exatos)
no sexo frágil - púbere falo,
levando as pernas em riste
neste rítmico embalo
do desatar frenético de fivelas
trazendo o gozo em jato.

São eles os culpados,
Seus discípulos do Diabo!
Que mesmo das regras, dos ditados:
que em em mãos enfadonhas
crescem verrugas, pelos e cravos!
Transgrediam adictos,
rompendo os sermões nefastos
dos padres em missas nos domingos
que a mim dirigiam o veredito:
É coisa do demônio, filho!
É o mais puro pecado!

Terça-feira, Setembro 27, 2011

io non fumo

Novos ares são fontes constantes de estranhamento. Eu, ser viajante perdido pelo mundo, sozinho com minhas inquietações, parado em frente à uma banca de revista, percebi o andar manco, anêmico e desorientado duma velha. Era cinco horas da tarde, sol ainda a pino por aqui. Um domingo, sinos tocando: ela vai à missa!

Deixei a velha em paz e voltei a perceber o meu entorno. Fazia calor e as pessoas daqui fedem mais do que o habitual neste período do ano. Fedem mesmo. Exalam uma podridão tal que em certo momento percebe-se uma nuvem cinza que lhes encobre como fumaça de cigarro. E talvez até seja mesmo. Campanhas antifumo não funcionam nestas bandas de cá. Outro dia vi um cartaz: Eu não fumo! Do lado, um lixeiro com pelo menos quarenta e duas bitucas de cigarro. Tive a pachorra de contar. Até ri. Pior: na frente de um hospital. De câncer! É que fumam desde a escola... Meu Deus! Se na minha escola tivesse um guri com um cigarro na boca: Bomba! Bomba! Corram, chamem os pais! Conselho de classe! (Será que ainda existe isso? Conselho de classe?). Aqui não, aqui é moderno, faz parte da revolução da independência-sexual-social-juvenil. Se é que esta também existiu. Bebe-se, fuma-se, transgrede-se, fura-se fila, nega-se assento aos velhos nos ônibus, ok! É a era vinte e um. Geração xis, ípsilon, zê! E eu que nos meus parcos conhecimentos imaginava que a sociedade se segregava entre os xis-xis e xis-ípsilon, salvo algumas aberrações genéticas, é claro.

Esperei o sinal abrir e atravessei a rua. Logo na esquina, um bar: desce aí uma gelada! Com um calor infernal daqueles, desceu mesmo, do jeito que estava, se gelada ou meia boca, foi. Era, segundo informação precisa do copo, zero vírgula quarenta e cinco mililitros. Uma boa quantidade a ser apreciada num fim de tarde. Melhor seria se fosse à beira do mar e com pessoas falando em português, mas nem tudo pode ser perfeito. Os sinos deram uma segunda chamada. Aqui eles chamam três vezes: 1- olha, vai começar; 2- ok, galera, venham logo, é sério; 3- se não chegarem o padre vai excomungar todos vocês, viu! Semana passada fui a uma missa, afinal terra do Papa, né. Mas como o Papa aqui não é lá tão pop assim, representei 10% da plateia, não que eu seja gordo, não estou contando em área corporal, oras, é em números mesmo. Uma frustração: sequer sair à francesa pude. Garçom, manda mais meio litro! Enche um pouquinho mais esse copo aí que dá!

Num intervalo de aproximadamente meia hora, a velha manca e meio estrábica (que só agora deu pra perceber) percorreu uma distância de aproximadamente duzentos metros. Lógico, ajudada pelas muletas. Que missa, o quê! Ela entrou foi no bar, no meu bar! Gritou uma coisa qualquer lá dentro e na mesma hora lhe trouxeram um copázio de cerveja bem maior que o meu. A velha virou este copo numa velocidade tal que até hoje vi poucos fazerem. Soltou um Arhhhh! tão aliviado que parecia o néctar dos deuses. No fim, bateu brutamente o copo na mesa, olhou desconfiada para cada lado e saiu fazendo o igual caminho inverso.

Fiquei atônito! Olha, quase que aplaudia! No meio daquele entusiasmo, dum êxtase quase orgásmico de congraçamento de Deus com os homens, vem e me bate o ombro alguém que me pede um isqueiro. Uma broxada infeliz! Filho-duma-qualquer! Bem devagar viro. Fito um indivíduo de um metro e setenta e pouco de altura com um malboro grudado na boca – nem tirou pra falar: se tinha quinze anos era muito. Pê da vida pelo com meu coito interrompido, respondo: io non fumo!

Sexta-feira, Setembro 02, 2011

quase morto

                             Hoje escrevi um verso torto:
                             não é redondo, nem curvo, nem roto
            não tem inicio, só meio - meio torto
            como um velho que caminha manco, sozinho, absorto,
                               num semblante pálido, sem graça, quase insosso
                              da velhice flácida, passada, esquecida - um quase morto.



Quinta-feira, Abril 28, 2011

a infância do meu pai

Ao meu amado pai que outro dia, visitando a casa de seu padrinho, disse-me que procurava sua tia e sua infância por detrás daquelas portas antigas.


Atrás daquela porta velha sem trinco
jazia a infância do meu pai.
Esquecida estava nas suas memórias de menino
sua vó Amélia ali sentada, quieta,
sempre sorrindo.
Estava também o seu pião de madeira,
talhado a mão pelo Zeca Texeira.
No mesmo canto da mente,
numa caixa, bem juntinho
dormiam uma pipa, um balanço
e feito de lata de óleo de cozinha
com rodas de chinela havaiana,
puxado por um cordel, o seu carrinho.

E só agora naquele vão sujo com poeira
da porta velha sem trinco
carcomida nas beiras
que levava a um quarto
cuja luz se acanha
da casa de portão largo
quase de esquina
com uma rua que o nome esqueço
e a outra, Zoé Cerveira
no bairro decadente da Alemanha
meu pai se achou de novo criança.

Aquela porta era suja mesmo de tempo:
escondia não somente o pó e coisas velhas
dos tempos de sua vó,
mas das disputas de peteca, de bola e outras parelhas
que fizeram brotar naquela tarde a meninice largada no esquecimento;
e que agora adulto, vago e sozinho
caminhando entre paredes e assombros que desde pequeno
guardando no peito seco e mofino
o que de idos tempos persiste voraz, canino,
que é o medo de perder a voz, o raciocínio
ou de ti, passado, seu encantamento.

Sexta-feira, Abril 15, 2011

poesia imunda

            A velha não cabia num poema.
            Tão suja, cheia de mazela,
com seus resmungos, gritos de dor
                                          e mais velha.
Sua mama em carne viva, ulcerada
                                          e amarela
consumida pelo tumor - doença imunda
                                          e que nem sabe ela
deixou aquilo crescer em seu corpo como bicho,
                                          sem noção,
                                          quase cadela
explodindo em podridão,asco, horror
                                          necrose fétida;
que perturba minha paciência, meu sono,
                                        sua néscia!

         Agora, sem paz
         escrevo rude, depressa
         e perplexo questiono:
         se o poema que componho
        cabe tamanho assombro
        desta tua doença maléfica?

Ora pois, se é fato e verdade
que a poesia é livre
transita mundos e épocas sempre vívida, sem idade,
revolve as imundícies humanas, suas vísceras e entranhas,
que por razão não absurda, nada mais me estranha.
Já que se poesia não discrimina, nem é ortodoxa, tampouco contida,
por que haveria de ser
que esta pobre velha a sofrer
não tivesse no poema sua ferida?