Tenho tanta saudade de mim...

domingo, abril 30, 2006

sonhos... uma proletária

Todos os dias seguia o mesmo ritual. Acordava com humor trágico e o corpo quente com aquele cheiro bem peculiar de quem havia dormido por um bom tempo. Ainda permanecia ali com os olhos meio abertos, meio fechados, tomando fôlego para voltar novamente à vida. Sempre cochilava mais que podia, mas se não fizesse aquilo, parecia que não dormira a noite inteira. Mesmo com o andar das horas, nunca punha a pressa adiante de seus passos e tão logo se entregava ao seu diário processo de transfiguração. A água escorria-lhe as coxas correndo um rio pelas pernas e carreando todas as impurezas de sonhos maus que por certo haveria de ter tido. Sempre sonhava coisas ruins. Dizem que os sonhos são necessidades mal expressadas. Devia ser uma pessoa recalcada ou no mínimo tola. Sentava-se a frente de sua penteadeira e com cuidado arrumava as madeixas numa composição ortodoxa, comportada. Logo o pó viria cobrir seu rosto, moldando a máscara que diariamente compunha o semblante estático. O vermelho do seu batom era sangue puro. Matava os seus amores todos os dias, retirava-lhes o sangue e o guardava. Suas pernas delicadamente acariciadas por meias finas de seda logo ficavam tesas quando os pés se acomodavam no scarpin de salto bem longo e fino, sua arma predileta. Adorava matar e pisar suas vítimas com o salto agulha, cravejando sua ira na carne morta, espasmódica, de seus defuntos. Mas ela era recalcada. Então apenas sonhava.

Na doçura de seus gestos e na mansidão de seu olhar, trazia a ira de toda uma existência. Sua boca sedenta de almas exalava o perfume lúgubre das flores dos cemitérios. Seu corpo jazia a perdição. Apenas sonhava. Toda vestida de dama em seu tailler, saía de seus aposentos toda majestade. Descia as escadas da pensão, seu palácio, e logo a porta se abria para então a rua lhe absorver. Sumia.

Os fins de tarde daquela ilha eram extraordinariamente policromáticos. Nuanças de vermelho e azul fundiam no horizonte e cortavam a paisagem numa pintura fouvista. Logo ressurgia. O ranger da escadaria anunciava o seu regresso. Intacta. Nem parecia que um dia inteiro havia passado. Permanecia a mesma. Então retirava toda a sua fantasia, sua máscara e suas armas. Vomitava as vísceras de suas vítimas que nunca morriam. O corpo voltava a ser velho e cansado. E se entregava aos sonhos reais de morte que lhe traziam vida toda manhã.

sexta-feira, abril 14, 2006

ainda

De repente escuridão... Havia alguns dias que não andava lá bem dos humores, meio inapetente, apático e com uma preguiça maior que o normal. Por vezes no fim da tarde meu corpo ficava quente, mas logo a cama me envolvia num abraço e cedo esquecia das febres. Aliás, adoecimento é matéria de esquecimento, de pura negligência. Quem bem se lembra do corpo, da alma pouco sucumbe. Isto é tão verdade que, de todos os velhos que conheço, aqueles mais lúcidos foram os que morreram mais tardiamente, mas sempre morreram, ainda não vi um permanecer, ficar ali, mesmo latente, quieto, esperando a passagem dos tempos, sendo referência do passado das coisas e testemunha das grandiosidades d’agora. Por isso sou negligente mesmo. Pouco importa se meu fim é cedo ou tarde, agora ou se foi anteontem. Tudo tem fim. E no fim do dia seguinte a ira colérica tomou toda a extensão de minha pele, fê-la em brasa, olhos em tocha, boca em chamas. O homem negro de olhos negros e capa negra fechou então minhas pálpebras e me levou consigo. Fui.

Alguns dias depois, ou seria meses, não sei ao certo. O fato é que não estava ali há pouco tempo. Sentia apenas que voava. Olhares ao meu redor, muitos, nunca vi tantos, e se forem de anjos, todos mentem de suas belezas. Lá encima, bem acima deles, uma claridade exageradamente ofuscante indicava o caminho pelo qual estava sendo levado. Se morrer é ter que cegar a retina com aquela luz, prefiro então a penumbra de meus mortais dias, ou então a morte de lugar algum, aquela de apenas me desfazer e me espalhar pelo mundo e não ter memória, nem perspectivas de continuidade. Apenas a de estar nos lugares, como o pó que sempre permanece mesmo depois que tudo é limpo e que ninguém vê a primeira vista, mas está ali.

Quando a dor fez parte dos segundos que lentamente passavam, descobri que não morrera. Vi meu corpo cheio de pequenos tubos que invadiam minhas veias pelos quais soluções tatuavam na minha pele o caminho de meus vasos, trazendo a agonia, o sofrimento. Descobri que existe mesmo inferno, ainda que dantes nunca quisera acreditar. E ele fica aqui! Seria castigo de meu esquecimento? Seria então uma opção estar ali? Um grito rompeu o silêncio que violentava meus ouvidos, o rosto em lágrimas, sozinho. Dói ser só. Nem sequer poderia sair correndo com minhas mãos presas à cama, meus braços já cheios de hematomas, sinais da rebeldia inconsciente das convulsões. Não sou muito de me entregar. Não havia outro caminho. Calei meus pensamentos, meus impulsos e por fim minha boca.

Alguns anos depois descobri que pessoas também viviam ali, não presas como eu. Já devia ter desconfiado mesmo, afinal aqueles tubos nunca esvaziavam. Alguém sorrateiramente violava o santuário de meu sono e os trocava. E nunca dormira como ali, acho que era uma espécie de magia, de encantamento que havia naquela cama, nas paredes brancas sem cantos e na janela que não ia a lugar algum. Certo dia cheguei a olhar uma dessas pessoas. Era noite ou dia, não sei, afinal nada mudava, tudo era igual o tempo todo. Então não deixei a magia me envolver, fechei os olhos e fingi dormir, mas estava bem vivo, a espreita, como um leopardo ágil. Quando ouvi o giro da maçaneta, abri uma fresta entre as pálpebras e vi. Não eram humanos! Por isso nunca tinha ouvido sons de passos, afinal voando ninguém ouve o atrito do chão contra os pés. Desde então resolvi não querer entender mais nada, nem mesmo o porque das paredes sem cantos.

E eu aqui fui ficando só para poder ver a verdade das coisas. E fui envelhecendo sem nunca eu perceber. Nem dei conta que já havia feito a minha escolha de apenas ser o pó que permanece. Descubro-me um mar que rebenta tanto para nada e a memória é a única testemunha que prende por um fio o que ainda sei dizer. Ainda...

domingo, abril 09, 2006

um velho, uma bengala

Ele foi indo rua abaixo com sua bengala do lado e passo ébrico. Todos os dias o velho fazia o mesmo caminho e os mesmos olhares que o acompanhavam diziam “agora ele cai”. Para infelicidade de todos, nunca aconteceu. Na sua limitação, ele continuava, como quem se caminha sem destino e sem pressa de chegar a lugar qualquer, andava pela necessidade de se sentir vivo, mesmo que todo o peso do tempo o transfigurava num moribundo. E nesta luta constante contra as adversidades que eram pautados os dias daquele senhor de olhar manso, expressivo e de cabelo de algodão cru.

Não sei bem porque aquela figura me trazia tanta impaciência. A calmaria de seus gestos trazia a agonia ao peito. Queria trocar algumas palavras com ele, quem sabe um “oi, como vai”, mas será que isto se pergunta pra quem não sabe nem o que lhe espera ao dobrar a esquina? Sim, porque naquele avançar da idade, nada me espantaria se me dissessem que o velho da bengala tinha dobrado a esquina, tropeçado numa pedra e morrido de traumatismo craniano. Não sabia realmente o que dizer a ele, nem o que perguntar. O silencio que geralmente ajudava a aliviar as tensões da mente não funcionava com aquele velho. Acho que nem mesmo o pobre coitado sabia o mal que me fazia. Devia era morrer logo d’uma vez e me deixar quieto! Não queria mais ser obrigado a olhar o velho a passar pelas coisas e as coisas a passarem pelo velho, numa passividade recíproca e cansada.

Logo chegou o tempo de partir de minha cidade e buscar a vida noutras paragens. O dinamismo da capital me fez esquecer o velho e às vezes até de mim mesmo. O ritmo taquicárdico da rotina metropolitana era bem eu. Gostava daquilo, do desconhecido, uma sensação bem maluca de ser só no meio de milhares de pessoas juntas. Mas como tudo acontece comigo, isto cansava por vezes e lá eu voltava à cidadela calma e pacata que me gerou. Numa dessas visitas lembrei o velho e percebi que ele não descia mais aquela rua no fim de tarde como dantes. Senti um vazio, talvez saudades daqueles passos calejados e daquele olhar manso. Ninguém soube me dizer o que havia acontecido com ele, nem mesmo o seu nome sabiam para que eu pudesse talvez encontrar alguma lápide no cemitério e quem sabe acender uma vela. Nem mesmo se sabia se ele havia mesmo morrido. Ele simplesmente sumiu, tornou-se invisível, desintegrou-se no espaço.

Procurei saber onde ele morava. Não foi muito difícil. Uma velha casa perto do rio cercada de ripas aparadas com uma cancela de madeira na frente que abria o caminho por um jardim de hortências, rosas e cravos entremeados por capim e ervas daninhas. O som do rio batendo nas pedras se unia aos dos xexéus que faziam seus ninhos numa gameleira bem perto dali e embalavam a melodia daquele cenário melancólico. Segui um pouco mais e estava em frente da porta de madeira débil que pouca resistência fez quando forcei minha entrada. Os raios de sol atravessavam algumas telhas quebradas no teto e a penumbra envolvia a atmosfera da sala. No canto, uma cadeira preguiçosa e no mocho que estava adiante, um jornal de três anos atrás. O velho lia. Uma sensação de medo e calma juntos ao mesmo tempo me invadiu, mas fui além. Devagar, entrei por um pequeno corredor que ao fim levava a um pequeno quarto. Uma cortina de xita rasgada isolava aquele compartimento do resto da tapera e o deixava mais escuro que o restante dos cômodos. Os raios de sol que insistiam em iluminar o ambiente pelas frestas duma janela que ficava na parede do fundo daquele quadrado me convidavam para que eu os ajudassem a transpassar aquela barreira, então eu a abri.

Meus olhos contemplaram uma simplicidade tão ímpar. Fiquei parado um certo tempo até entender tudo aquilo. Na cama de palha coberta por um lençol que antes deveria ter sido branco, adormecia a velha bengala e na cômoda ao lado, uma lamparina velava papéis dispersos dispostos embaixo de uma caneta de tinta já seca. Peguei todos eles e os trouxe comigo. Saí do quarto e me achei na cozinha com um fogão de lenha com algumas cinzas que ainda descansavam no seu interior. A portinha dos fundos rangia com o vento que a insultava, passei por ela, saí e busquei o quintal. Dei algumas voltas, comi algumas cajás que haviam caído há pouco. E lá no fundo, debaixo duma laranjeira de sombra singela descansava uma cruz fincada no chão. Ele dormia ali. Na paz e na serenidade de seus dias quando em vida. Nem fiquei triste nem nada. A tranqüilidade de sua morte trouxe a paz à minha vida.

Em passos curtos e calmos agora eu subia a rua. Busquei minha casa, meu quarto e dormi. Fiquei em silencio por alguns dias, falava somente o necessário, não desperdiçava minhas forças com o supérfluo. Lembrei então os papéis que havia roubado do velhinho e lendo aquelas letras tremidas e incoordenadas vivi um século inteiro em poucos minutos. No fim de seus versos ele dizia bem assim “e fui feliz...”. Fechei os olhos e chorei.