Tenho tanta saudade de mim...

terça-feira, fevereiro 17, 2015

fim do carnaval de 2015

foi aquela nossa despedida:
da janela, num ponto mais alto, parado,
nossos olhares a meio metro
os corações a meio infarto
o motor do ônibus em ponto morto
e os minutos, fiéis ao tempo parco
impiedoso, medíocre e farto
(nenhum segundo a mais),
ronca o acelerador!
ruma ao Charles de Gaulle
e eis por fim que parto

levo-as no rosto
lavando o que disfarço
fora: fortaleza segurança
dentro: loucura paixão saudade
dos dias de amor gastos

cinza foi a cor escolhida
do dia de minha partida,
foi-se mais uma vez Paris
mas sempre a teremos sim
os risos excessivos aussi
e nossas piadas internas:
- comment tu t'appelles?
-je ne "plus blis!"*


*http://youtu.be/78pi_4Op64A

quarta-feira, fevereiro 04, 2015

epifania

dizer tudo
e ainda sim não ter
sentido definido
então vivo, logo existe poesia

mistura química de palavras
com sensações minhas
e libertas:
ser tudo ou nada

sou poeta aqui
já que na vida
a rima de meus dias
é escassa
longe de ti

ser poeta e fugir
mundo afora e através
gritando vida!
ecoando teu nome ao revés

incorpórea epifania
alcançai a alma minha,
despida,
devassada por ti,
minha poesia

segunda-feira, fevereiro 02, 2015

O circo

Sob a lona rasgada
com o brilho do estrelado céu
baila garboso o palhaço
dá cambalhotas, faz escarcéu
gaiato, não tem escrúpulos
nem foi treinado em qualquer curso
é nata sua pilhéria
e é sim o ladrão de mulher!

E chega ele pomposo
il grande circo, senhores!
anuncia no microfone orgulhoso
(com sotaque paraibano)
que o circo genuinamente italiano
chegara naquelas paragens:
engolidor de espadas, palhaços,
malabaristas, o fantástico mágico,
e nossa maior atração!
(grita com mais entusiasmo)
direto da África!
Ele!
O grande leão!

Os moleques corriam aos tropeços
esbaforidos, atrás do carro de som
- tio, dá pra nóis um ingresso!
e as havaianas iam se perdendo pelo chão...

O velho de dentro do carro
(que não era nem bobo, nem nada)
propôs a meia boca à meninada:
- se vocês me trouxer uns gato,
pra matar a fome do leão
eu deixo ver o espetáculo
mas quem espalhar na cidade
essa minha proposta
num entra de jeito nenhum
e inda fica com cara-de-bosta!

Pronto! O desafio fora lançado:
Zé Ricardo, aquele danado, levou logo dois
pra garantir o serviço empenhado.
Leonardo, Alberto e Mundico
riam da cara do Chico
que ainda não capturara seu gato.

Corria em silêncio o campeonato
naquela cidadela de interior,
nem desconfiou seu Nonato
quando passou na sua rua com um saco
o Manel escondendo um gato,
com miado desesperado e abafado,
que era dentro seu bichano, o Tambor.

Ao final do dia, foram cobrar a tarefa
dada pelo dono do circo
mas ficou de fora Joaquim
que apesar do esforço empregado
em roubar o gato da sua tia velha
não dera conta do recado
e ainda pagou o maior mico.

Os outros bem que podiam
ter ficado calados
mas começou logo o Zé
a chamar o outro: - é abestado!

Joaquim franzino e covarde,
diante da maioria,
pôs entre as pernas o rabo
e correu pra casa da tia.

O leão decerto se saciou
com seu banquete felino
só se via no espetáculo
a arquibancada cheia de menino.

O Joaquim injuriado
não deixou nada por menos
e antes de acabar a sessão
deu com a língua nos dentes
e mesmo não tendo visto o leão
foi pra cama com riso contente
já que diferente dos outros
não dormira com o couro quente.

sábado, dezembro 20, 2014

Cabernet sauvignon


As pernas desenham sinuosas
balé perfeito pra mim,
me enroscam em seu tanino, suave,
ruborizam minha tez enfim...
Dilatam as papilas sedentas,
sugo sua seiva carmim
e nublam as pupilas distantes
afogadas de seu tinto rubi.

Litania

A vida é cheia
das tentativas de acertos,
porém, entre os erros
o que se vale
é tentar.

domingo, dezembro 14, 2014

Coisa da gente

É como sorriso amarelo, entreaberto,
felicidade maltratada de tempo,
cheiro bom de infância-menino,
de talco no colo de minha avó,
do quase esquecimento.
Do quase dormir,
um instante
que se roubam as rédeas da vida
da gente.

É uma tocaia
quando o sinto,
quando o espero.
É uma eternidade, confesso.
São mensagens imediatas
na velocidade dos meios modernos
e a mesma sensação de outrora
dos bilhetes vindos a carteiro.

É um cerzir de retalhos
que desenho na mente,
montando com cuidado
a figura que me é aparente.
E me questiono neste insano ato
de me entregar combalido
a este vulcão que explodira rápido:
o que ganho ou perco?

Deixo-o quieto então,
abrando-o com ventos de fora,
mas fica a parte um quinhão
desta coisa que me alucina a mente.

sábado, dezembro 13, 2014

sexta-feira, dezembro 12, 2014

Deus

Como sentir saudade
do que ainda não existiu?
Será excesso de vida presente
ou o hiato entre o passado e o futuro
que se uniu?

Será ócio da mente iludida,
translúcida de receio e palor
ou será a pele úmida e fria
em iminência de síncope de amor?

Como amar o que não se conhece,
o que ainda sequer se viu?
Eis pois como adora uma mãe
o seu ventre que não pariu.

Será assim o amor de Deus?
Maior, urgente e capaz
de nos invadir sem piedade
queimando o que é impuro, toda a maldade
e me levar em Teus braços menino,
me enovelando num gesto de paz.

terça-feira, dezembro 02, 2014

Boca

Entre todas
as bocas que uno,
boca de lobo
da rede que afundo,
boca de esgoto,
boca de fumo,
boca da noite
escurece profundo,
nem na boca de Krishna,
que se esconde o mundo,
acho o que procuro.

É mesmo de tua boca
que desejo o sumo.

sexta-feira, novembro 07, 2014

As estações

Não há amor maior
ou pavor pior
no longo hiato
que se me abriu.
As estações se cumprem
no seu devido tempo:
em julho fui frio,
outono, a copa de meu ser caiu
e nestes verões, sedento,
aguardo florescer abril.

segunda-feira, novembro 03, 2014

Único beijo

Eles se insinuam
só para mim e
habitam o exato
e estratégico lugar.

Em sua perfeição
de brancura, enfileirados
em ordem coesa e justa,
me sorriem.

Embebidos nas gotas
de tua saliva, tua boca,
desfiladeiro perigoso de desejo,
percorro com denodo,
alcanço enfim a língua
e me uno a ti
num molhado, demorado e único beijo.

quarta-feira, outubro 29, 2014

O túmulo de meus avós

Sob sua sombra
jazem nossos mortos:
os seus, murchas pétalas
os meus, humanos corpos.
No jardim de sono eterno,
em sua existência etérea,
desfolha mansa e com cuidado
preservando casulos de nérias,
afinal há vida em tudo!
mesmo esta lápide fria, cinzenta
recebe o abraço sinuoso,
repelido de esquecimento,
da árvore baixa, anciã
com tronco retorcido e cruento,
guardiã das memórias de tantos
dispersas nas flores
levadas no vento.

segunda-feira, outubro 13, 2014

A gota

Existe
pela tensão de superfície
de átomos milhares,
os hidrogênios aos pares
em ligações covalentes
com o ar que respiro.

Repousa num vinco
de folha verde escuro
de meus quintais,
precipita do céu e da face,
insinua-se entre tetos antigos
de casas sob temporais
e do orvalho da manhã também nasce.

No meio de sua imensidão quântica
bailam elétrons e íons:
estas partículas diáfanas
que emprestam seu brilho,
refletindo em si
a inteira paisagem.


quarta-feira, outubro 01, 2014

Às vésperas de teus lábios


Não há Deus nele.
O vazio não o representa.
Está entre o surto e o assombro,
a convulsão de vida real,
um espaço virtual,
instante sem quaisquer alucinações
do futuro e do presente.
É saltar no abismo e não ter
certeza da outra margem.
Fechar os olhos e simplesmente esquecer
de quem se é, das reentrâncias da alma,
da falida estrutura humana.
Dura segundos neste vil cotidiano
e a eternidade galáctica no gesto
de te beijar
a boca.

segunda-feira, setembro 29, 2014

Segundo olhar

A grama do jardim
do inimigo
é tão úmida e escorregadia
quanto a minha.
As formigas ardem na pele
de quem é picado
com prurido símile de outrora.
O que muda senão a forma
oblíqua e solitária
de enxergar o abismo
que tu te afundas?
O que esperar além das desgraças anunciadas
perversas e sádicas do porvir?
Esperança?
Nome infame:
fidelidade aos incontroláveis
desdobramentos da ilusão
é como se entende.
Sê só e em maior parte triste
que o riso ao nascer
ilumina mais e aquece pujante
a face.

Encruzilhada

Na meia distância
da estrada que percorro
aos tropeços
entre a irracionalidade
e o patente controle
dos desejos
é onde você
eu encontro.

domingo, setembro 28, 2014

Sentido da vida

Ir ou voltar
Sorver esta (in)decisão
e seguir
não girar o pescoço
Ser leste
bússola adiante
Ensurdecer grito de socorro
Sufocar palavras não ditas
Empalidecer pupilas
Revolver ruínas
genuínas peças perdidas
O cálice maldito
da tua boca
adicta
à minha
Qual o propósito,
minha vida?

sábado, setembro 27, 2014

S-o-b-r-i-a-m-e-n-t-e

Ela nunca ocorreu.
De vaginas úmidas em labor
sua existência declinou.
É vaga como se sente
e não se toca
e nem se vê.
Mas pesa, pesa muito,
mais que toneladas que o homem
ousasse mensurar.
Segue sempre abstrata.
Imagina-se o que queira dela.
Nela cabe o universo,
cabem as nuvens,
cabe eu inteiro e nu
e cabemos nós em outras eras.
Ela me leva para onde não quero
e na sua mais profunda perversão
é exatamente onde queria estar.
Não se afere o tempo em sua casa
que sequer tem cantos:
as sujeiras ficam expostas na sala
às vistas.
Ela é deus.
É o lamaçal dos homens.
A carnificina das guerras.
São cabeças decapitadas.
São noites cruéis.
Nela a infância brinca e não tem fim.
O ser humano é imortal sob sua pele.
As palavras são incompletas quando a ela se proclama
amor eterno.
Os seios de minha mãe estão lá também
saciando meus medos e minha saudade.
É uma grande vaca de tetas macias,
uma cama imensa onde encontro conforto,
é o vértice do mundo,
alfa e ômega
a Bíblia inteira.
Ela sou eu de pés feridos andando no asfalto
quente do meio dia
clamando por misericórdia.
Ela é a cegueira
e a luz.

quinta-feira, setembro 25, 2014

Frente e verso

Dá-me tua língua.
O vértice de tuas pernas.
Deixa que enfie tudo
em tuas entranhas,
geme alto,
pede,
apanha!

Dá-me de frente
e teu reverso
quero meu sexo inteiro
no teu corpo
imerso.

Nas profundezas de tuas águas
explorar a escuridão
de lá nascer o prazer
com malícia e precisão.

Sê liberto:
move-te em minha cadência,
treme extático,
tem malemolência.
Revira os olhos.
Saliva espessa.
Engole tudo, logo!
Que meu gozo
tem pressa.

quarta-feira, setembro 24, 2014

Bem-te-vi

Não é desassossego
nem assombro.
Faço poesia
porque respiro.

Nem sol, nem pleno.
Sou deserto:
na aridez
encontro meus oásis.

Um poeta insurgido
da ausência de ti.
Inspiração vem de onde,
bem-te-vi?
Meu bem:
Eu Vi.