Tenho tanta saudade de mim...

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

Quarta feira de cinzas


Papéis, talco e urina
melam as ruas, infectam esquinas
Resquício de transgressões
da festa em que até "machões"
rebolam e se amofinam,
trocam de sexo, suas messalinas!
Perdem o nexo:
sexo sem camisinha!
Acabando em ressaca
ou mesmo em desgraça
Numa quarta feira qualquer,
cheia de cinzas.

terça-feira, fevereiro 07, 2012

Sobre surdez e castanhas


E atenção! Imperdível! Super descontão torra-torra! Planos de pagamento a perder de vista. IPI reduzido! Não percam esta oportunidade de...

- João, abaixa essa maldita televisão!

Um grito ecoou lá da cozinha. Era Sebastiana, a Sibá, uma senhora de seus sessenta e muitos anos, aposentada, histérica e mulher de João. Viviam sozinhos numa casa de estilo europeu, alta, austera, telhado em vê, com sótão e tudo mais. Uma empregada vinha com frequência semanal. Havia de lavar e gomar as roupas do casal, além da faxina em geral. Ele, o velho, ex-combatente de guerra, havia levado um balaço na face e perdera a audição do lado direito e agora chegando quase à oitava década de vida, tinha de usar um aparelhinho minúsculo noutra orelha para que pudesse ainda ouvir algo, além disso, sofria de tremores que até então ninguém lhe havia diagnosticado. Há de ser a doença do Papa! Dizia ele todo orgulhoso aos curiosos de seu estado de saúde.

Sibá tinha manias. Dentre muitas, uma era bastante peculiar. Não se sabe se era para ajudar o marido, que já não ia muito bem da memória, ou se por falta do que fazer mesmo, o fato é que ela passou a espalhar etiquetas por toda a casa. No banheiro punha “TOALHA DE ROSTO” na parede do espelho  incrivelmente ao lado duma toalha. Havia etiqueta em tudo. Desde xícara, vassoura, televisão até o nome dos cômodos da casa. O mais bizarro, porém, foi quando chegamos numa das visitas raras que a fazíamos e vimos do lado de dentro do portão principal a seguinte mensagem: "CUIDADO COM O CÃO! "Com um um sinal de exclamação no final da frase mesmo! É pra eu não esquecer o portão aberto e o cachorro sair. Explicava ela sorrindo como se fora a coisa mais normal do mundo.

Certo dia, num dos passeios ao mercado central, Sibá encontrou castanhas de caju. João adora castanhas. Acordara de bom humor: comprou meio quilo e levou de presente ao marido. Chegando em casa, encontrou-o sentado na sala, lendo o jornal. Entrou, falou e nada. Viu na mesinha ao lado que ele havia retirado o aparelho da audição. Pôs-se então diante dele, abaixou-lhe o jornal e fez mímica ordenando que pusesse aquele bendito botão marrom na orelha afim que se fizesse ser ouvida. Assim ele o fez.

- João, trouxe castanhas pra ti. Tu não gostas?

Ele nem deu bola. Resmungou, tirou o aparelhinho de novo, arrumou o jornal e voltou a sua leitura.

Velho bruto! Sibá largou o saco de castanhas sobre a mesa ao lado daquele ordinário e foi preparar o almoço. Um ensopado de camarão faria naquele dia.

João, entretido com seu jornal, quase que involuntariamente enfiava a mão direita no saco de castanhas enquanto a esquerda mantinha o periódico diante dos olhos. Levava as castanhas à boca e as mastigava lentamente. Como sofria de tremores, sempre deixava cair algumas sobre a mesinha e ao redor da sua cadeira. Lia, mastigava e pensava no camarão do almoço que comeria às onze e trinta horas daquela manhã. Lia, mastigava e pensava na sesta que faria logo em seguida. Lia, mastigava e já não pensava em mais nada. Num destes movimentos, punha uma castanha estranhamente dura na boca. Mastigava dum lado e nada, do outro e a castanha não se partia. Diaxo! Deve estar estragada! Tirou-a da boca e a atirou pela janela. Minutos mais tarde, levantou-se e foi à cozinha. Estranhamente não ouvira as baboseiras da mulher na hora do almoço. Deve estar zangada, pensou. E Sibá a tagarelar do lado do marido. Em seguida, o velho, resignado, saiu do recinto, lavou o rosto no lavabo e se deitou na rede da varanda. Dali acordaria somente depois da novela da tarde.

Às quatorze e trinta horas dona Sebastiana abriu o portão para Maria, a empregada. Maria lavou a louça do almoço, limpou a cozinha e os banheiros, pôs as roupas na máquina de lavar e enquanto as aguardava para por no varal, varria a pequena área próxima ao jardim que rodeava as janelas da sala. Num canto daquele terraço luzia um estranho objeto de plástico. Tomou-o às mãos: era meio redondo, de cor marrom, cheio de pequenos sulcos, como se fora marca de dente. Maria o trouxe e entregou à dona da casa.

- Este imbecil...

Sibá ligou para a assistência técnica do aparelhinho e João ficou surdo por uma semana.

sexta-feira, janeiro 20, 2012

O velho que secava dinheiro

No meio do fim do mundo, socada num pé de serra, erguida sobre uma calçada de pedra, paredes de taipa, rebocadas com massapê duro secado sob o sol pesado dos trópicos, jazia a casa dum velho rabugento. Distava a exatas duas léguas doutras residências das redondezas que dispunham igual formato e tinham o mesmo cheiro de couro de vaca curtido que compunham maior parte do mobiliário da época. Logo na varanda, amarrada com relhos de carneiro, dormia uma rede de alvura angelical tecida de linho grosso e com as beiradas que dançavam as rendas do varandão confeccionado pela dança frenética dos bilros que com seu titilar trançavam habilmente nas mãos de dona Zefa, a mulher do seu Manel, o velho da casa.


Aquela casa fedia a tempo. Pendurados na parede maior da sala rústica, iluminadas pela lamparina de querosene, emboloravam a foto de São João Batista menino e o retrato do casal, de preto e branco, com detalhes pintados a mão pelo retratista que passava numa freqüência anual por entre as famílias da região. Geralmente vinha quando sabia do casamento de alguém. Sempre se reservava o dinheiro para este luxo: a moça dava o dote pro marido começar a vida e, separado deste montante, o dinheiro do retratista. Quase como regra, um dogma tão importante quanto o fato de sempre se encaixar a data do casório na época das desobrigas. Afinal, deslocar-se até a cidadezinha pra casar havia de ser caro, melhor mesmo esperar o frade vir até eles.

O velho da casa, apesar de rabugento e aparentemente maltrapilho, com suas calças de costuras reforçadas, blusa de remendos, cara amassada talhada pela dureza do tempo e barba malfeita, era um senhor de posses. Tinha sempre café, açúcar cristal, mel, carne fresca (das vacas que abatia quinzenalmente) e tabaco. Tinha até dinheiro em espécie que guardava bem dobrado numa caixa de lata quadrada que em geral se acondicionava a pólvora. Como a umidade era grande na região e a qualidade do papel não era decente, não raro via-se o velho depositar sobre a calçada de pedras, sob o sol a pino, nota por nota do seu dinheiro, revirando-as sincronicamente para que pudessem evitar o mofo, já que as grandes compras de tecidos, cereais, temperos e outras finezas eram feitas sempre depois do inverno nos mercados da cidade mais perto, uma vez ao ano. Munido de um pedaço de pau, o seu Manel enxotava as galinhas, o cachorro ou mesmo a velha sua senhora caso algum ousasse se aproximar da sua fortuna.

Um certo dia, deitado na rede da varanda, com o chapéu cobrindo parte do rosto, a blusa desabotoada até a metade, com uma perna do lado de fora se balançando devagar, o velho recebeu uma visita. Eram dois garotos, um era filho dum vizinho.

- Seu Manel, o pai disse que era pro senhor mandar um litro de mel!

Num movimento lento, o velho tirou o chapéu da cara, olhou bem a figura dos meninos. O moreninho magricela, cabelo arrepiado vestindo um calção de feltro com um rasgo na barra, descalço e nu da cintura pra cima era o filho do vizinho. O outro, o outro não era dali, era alourado, branco rosado, meio gordinho, trajando calça curta de linho e uma camiseta de cambraia; havia de ser da capital. Seu Manel resmungou, acenou com a cabeça e disse:

- É pro tcho pai adoçar o café, né?

- E esse daí, num é da cidade? Por que não trouxe o açúcar?

- Eu trouxe Seu Manel. É que acabou... Respondeu o menino de fora.

- Pois bem, fale com aquela cascavel véia que ta ali no jirau. Falou o velho apontando para o rumo onde estava a sua senhora. Moravam apenas aquelas duas criaturas na casa, mas incrivelmente nunca se falavam, nunca!, exceto quando para trocar insultos e xingamentos.

A velha, gorda e feia, ouvindo as sandices do marido, de imediato retrucou.

- Cascavel é a tua mãe, velho caduco!

Apesar da feiúra e da corpulência da dona Zefa que mal cabia sentada no tamburete da cozinha, era uma senhora doce e generosa. Acho que por tamanha bondade ainda não tinha dado cabo da vida do velho. Ali, enfiada no meio do nada, por veneno na comida do Manel e depois jogar seu corpo ribanceira abaixo não haveria de ser tarefa árdua. Ao contrário, aceitava aquela convivência doentia por talvez acreditar que se vivesse no purgatório em vida, havia de passar direto pro lado do Nosso Senhor Jesus Cristo quando chegasse sua hora. Bem, se ela de fato logrou êxito, até hoje ninguém sabe.

- Vem cá meu fí, deixa esse véi de lado que ele ta ficando é doido. Eu conheço teu pai, lá da cidade. Tome, apanhe o mel, vá logo simbora antes do Manel... Vá, vá.

O menino ainda meio estupefato com a recepção do dono da casa, arregalou os olhos com a ameaça da velha, pegou o litro de cachaça 51 com uma rolha de sabugo de milho metida no gargalo, cheio de mel de tiúba e, junto com o garotinho da vizinhança, saíram correndo terreiro acima até atravessarem o portal da fazenda. O desespero era tamanho que no meio da correria não vira uma pedra, levou uma topada, caiu e o vidro mel, sacando de suas mãos, misturou-se todinho com a areia da estrada.

- O diabo é quem volta na casa daquele véi!

Sujos e desconfiados, os meninos chegaram na casa, não acharam ninguém. Decepcionados com a perda, foram na cacimba, tomaram banho, trocaram a roupa e voltaram pra casa. Sentados contritos na varanda, esperaram o pai do menino chegar da roça. Naquela noite iriam tomar café amargo.

terça-feira, dezembro 27, 2011

Carlos e Juliana


“Eu queria ter te conhecido de outro jeito. Queria que tudo tivesse sido diferente. Sempre idealizei meus amores e o mais perfeito de todos nunca imaginei assim. O mais perfeito de todos não teria como cenário nossas brigas e lágrimas. Perdi a paz, perdemos a paz, meu amor. Não vejo mais sentido para que nossas vidas sigam neste paralelo de desejos que jamais se cruzarão, sequer no infinito. Não quero mais isso. Não quero nós. Não quero eu.”

Juliana lia trêmula as palavras marcadas fortemente no papel amarrotado deixado num canto do quarto enquanto ainda podia ouvir o grito de Carlos ao se atirar do décimo segundo andar daquele prédio que havia se tornado nos últimos meses a sede de infernos e abismos para os dois.

Não morreu por amor. Morreu pela frustração de não o ter, pelo desencanto, pelo desassossego. Morreu jovem ao menos. Não experimentou a triste constatação de que todo este fogo (que nasce da juventude), fogo de amor sincero que arde enquanto dura e dura o infinito dum beijo ou da transa boa, não passa de percepções erradas, inocentes e precoces da realidade dos fatos. O tempo é implacável. Nada suporta seu peso sequer os amores eternos. Viram sei lá o que, uma coisa acomodada que se leva com a barriga atribuindo a eles um eufemismo singelo da frigidez e rigidez articular matinal: amizade. Ficam-se velhos, mas amigos, ok? Pior mesmo é quando se ouvem absurdos sobre relações incestuosas dos velhinhos: agora são como dois irmãos! Valei-nos, Pai. A impotência não é a castração da hombridade, da virilidade, mesmo que senil. Afinal, há músculos diversos que podem exercer funções mil, proporcionando os mesmo prazeres do membro rijo, senão mais. Duvidam? Mirem no espelho e abram a boca: ei-la!

Sorte mesmo a de Carlos.

Veio o rabecão do IML e levou as sobras do rapaz suicida. Juliana enxugou as lágrimas (as últimas), trocou a roupa, tomou seu comprimido e dormiu, agora com mais espaço na cama.

sexta-feira, dezembro 02, 2011

meus oito anos

A tarde quente
do verão equatorial,
com os sons dos carros,
em uníssono caos,
invadiam a janela, brutal,
ferviam meu corpo nu
coberto de suor, de sal
correndo ligeiro entr'os pelos,
nas curvas, até a virilha e o pau.

São estes os vilões: os dedos!
dantes débeis e ingênuos,
das carícias de pequeno
(desde os oitos anos exatos)
no sexo frágil - púbere falo,
levando as pernas em riste
neste rítmico embalo
do desatar frenético de fivelas
trazendo o gozo em jato.

São eles os culpados,
Seus discípulos do Diabo!
Que mesmo das regras, dos ditados:
que em mãos enfadonhas
crescem pelos, verrugas e cravos!
Transgrediam adictos,
rompendo sermões nefastos
dos padres em missas de domingo
que a mim dirigiam o veredito:
É coisa do demônio, filho!
É o mais puro pecado!

terça-feira, setembro 27, 2011

io non fumo

Novos ares são fontes constantes de estranhamento. Eu, ser viajante perdido pelo mundo, sozinho com minhas inquietações, parado em frente à uma banca de revista, percebi o andar manco, anêmico e desorientado duma velha. Era cinco horas da tarde, sol ainda a pino por aqui. Um domingo, sinos tocando: ela vai à missa!

Deixei a velha em paz e voltei a perceber o meu entorno. Fazia calor e as pessoas daqui fedem mais do que o habitual neste período do ano. Fedem mesmo. Exalam uma podridão tal que em certo momento percebe-se uma nuvem cinza que lhes encobre como fumaça de cigarro. E talvez até seja mesmo. Campanhas antifumo não funcionam nestas bandas de cá. Outro dia vi um cartaz: Eu não fumo! Do lado, um lixeiro com pelo menos quarenta e duas bitucas de cigarro. Tive a pachorra de contar. Até ri. Pior: na frente de um hospital. De câncer! É que fumam desde a escola... Meu Deus! Se na minha escola tivesse um guri com um cigarro na boca: Bomba! Bomba! Corram, chamem os pais! Conselho de classe! (Será que ainda existe isso? Conselho de classe?). Aqui não, aqui é moderno, faz parte da revolução da independência-sexual-social-juvenil. Se é que esta também existiu. Bebe-se, fuma-se, transgrede-se, fura-se fila, nega-se assento aos velhos nos ônibus, ok! É a era vinte e um. Geração xis, ípsilon, zê! E eu que nos meus parcos conhecimentos imaginava que a sociedade se segregava entre os xis-xis e xis-ípsilon, salvo algumas aberrações genéticas, é claro.

Esperei o sinal abrir e atravessei a rua. Logo na esquina, um bar: desce aí uma gelada! Com um calor infernal daqueles, desceu mesmo, do jeito que estava, se gelada ou meia boca, foi. Era, segundo informação precisa do copo, zero vírgula quarenta e cinco mililitros. Uma boa quantidade a ser apreciada num fim de tarde. Melhor seria se fosse à beira do mar e com pessoas falando em português, mas nem tudo pode ser perfeito. Os sinos deram uma segunda chamada. Aqui eles chamam três vezes: 1- olha, vai começar; 2- ok, galera, venham logo, é sério; 3- se não chegarem o padre vai excomungar todos vocês, viu! Semana passada fui a uma missa, afinal terra do Papa, né. Mas como o Papa aqui não é lá tão pop assim, representei 10% da plateia, não que eu seja gordo, não estou contando em área corporal, oras, é em números mesmo. Uma frustração: sequer sair à francesa pude. Garçom, manda mais meio litro! Enche um pouquinho mais esse copo aí que dá!

Num intervalo de aproximadamente meia hora, a velha manca e meio estrábica (que só agora deu pra perceber) percorreu uma distância de aproximadamente duzentos metros. Lógico, ajudada pelas muletas. Que missa, o quê! Ela entrou foi no bar, no meu bar! Gritou uma coisa qualquer lá dentro e na mesma hora lhe trouxeram um copázio de cerveja bem maior que o meu. A velha virou este copo numa velocidade tal que até hoje vi poucos fazerem. Soltou um Arhhhh! tão aliviado que parecia o néctar dos deuses. No fim, bateu brutamente o copo na mesa, olhou desconfiada para cada lado e saiu fazendo o igual caminho inverso.

Fiquei atônito! Olha, quase que aplaudia! No meio daquele entusiasmo, dum êxtase quase orgásmico de congraçamento de Deus com os homens, vem e me bate o ombro alguém que me pede um isqueiro. Uma broxada infeliz! Filho-duma-qualquer! Bem devagar viro. Fito um indivíduo de um metro e setenta e pouco de altura com um malboro grudado na boca – nem tirou pra falar: se tinha quinze anos era muito. Pê da vida pelo com meu coito interrompido, respondo: io non fumo!

sexta-feira, setembro 02, 2011

quase morto

                             Hoje escrevi um verso torto:
                             não é redondo, nem curvo, nem roto
            não tem inicio, só meio - meio torto
            como um velho que caminha manco, sozinho, absorto,
                               num semblante pálido, sem graça, quase insosso
                              da velhice flácida, passada, esquecida - um quase morto.



quinta-feira, abril 28, 2011

a infância do meu pai

Ao meu amado pai que outro dia, visitando a casa de seu padrinho, disse-me que procurava sua tia e sua infância por detrás daquelas portas antigas.


Atrás daquela porta velha sem trinco
jazia a infância do meu pai.
Esquecida estava nas suas memórias de menino
sua vó Amélia ali, sentada, quieta, sorrindo.
Estava também o seu pião de madeira,
talhado a mão pelo Zeca Texeira,
e no mesmo canto da mente,
numa caixa bem juntinhos,
dormiam uma pipa, um balanço
e, feito de lata de óleo de cozinha
com rodas de chinela havaiana
puxado por um cordel, o seu carrinho.

E só agora naquele vão sujo com poeira
da porta velha sem trinco
carcomida nas beiras
que levava a um quarto
cuja luz se acanha
da casa de portão largo
quase de esquina
com a rua que o nome esqueço
e outra, a Zoé Cerveira,
no bairro decadente da Alemanha
meu pai se achou de novo criança.

Aquela porta era suja mesmo de tempo:
escondia não somente o pó e coisas velhas
dos tempos de sua vó,
mas das disputas de peteca, de bola e outras parelhas
que fizeram brotar naquela tarde a meninice largada no esquecimento;
e que agora adulto, vago e sozinho
caminhando entre paredes e assombros que desde pequeno
guardando no peito seco e mofino
o que de idos tempos persiste voraz, canino,
que é o medo de perder a voz, o raciocínio
ou de ti, passado, seu encantamento.

sexta-feira, abril 15, 2011

poesia imunda

            A velha não cabia num poema.
            Tão suja, cheia de mazela,
com seus resmungos, gritos de dor
                                          e mais velha.
Sua mama em carne viva, ulcerada
                                          e amarela
consumida pelo tumor - doença imunda
                                          e que nem sabe ela
deixou aquilo crescer em seu corpo como bicho,
                                          sem noção,
                                          quase cadela
explodindo em podridão,asco, horror
                                          necrose fétida;
que perturba minha paciência, meu sono,
                                        sua néscia!

         Agora, sem paz
         escrevo rude, depressa
         e perplexo questiono:
         se o poema que componho
        cabe tamanho assombro
        desta tua doença maléfica?

Ora pois, se é fato e verdade
que a poesia é livre
transita mundos e épocas sempre vívida, sem idade,
revolve as imundícies humanas, suas vísceras e entranhas,
que por razão não absurda, nada mais me estranha.
Já que se poesia não discrimina, nem é ortodoxa, tampouco contida,
por que haveria de ser
que esta pobre velha a sofrer
não tivesse no poema sua ferida?

domingo, abril 10, 2011

amor terminal

Não chores, meu amor,
não chores mais
pela saudade triste
pelo nefasto vão
que nos separa
por mais de 1000km
que a distância insiste
desta cidade vil até o Maranhão.


Não és tu quem é doente, não
nem quem sofre de maus humores
que corroem a alma,
definham o corpo,
matam a ilusão.
Sou eu o câncer enraizado,
sou eu a peste em ressurreição
que das mortes épicas da Europa,
ao castigo diuturno do Sertão,
apunhalam minha medula,
                           infectam minha carne,
                           destroem meu pulmão.

Não chores viu, não chores não:
eu cá que sou terminal
e tu és o redentor.
Em mim habita este mal que
de minha existência é feitor:
                               das suas mãos brotam a agonia
                               dos seu olhos, meu furor
                               da sua ira, minha febre,
                               da minha doença, por ti,
                               o meu amor.

Não chores, meu bem, não mais
eu já suplico pelo ópio, pela morfina, pela paz
não sossego, nem durmo,
nem sinto pena do meu fim.
Sei que em breve minha dor,
minha dispneia, meu palor,
meus fluidos hemáticos
serão findados num exato prazo
que esta distância se extinguir.
Eis portanto a minha cura,
pois no longe sou loucura,
já que te ti sou metastático.

explode a poesia

Ao poeta Ferreira Gullar que certo dia me emudeceu.

Ele me deixou sem voz
             sem rumo.
             Sempre esteve ali,
             poesia latente, insone.
Eu que na correria
nunca vira.
Eu que na correria que me consome
Nunca deixei gritar sua voz
                                   sem pudor
                                   dilatada e infame
                                   Soar o desejo do mundo,
                                   desejo do abismo,
                                   do caos e da fome.
Romper ligeiro o que me espanta
                                   e afronta.
Extraindo o fel
               o cerne
               o sangue
               o gozo
               o sumo.
Mas agora
   mudo
     sozinho
       sem rumo,
           sumo.


Eu que na correria que me consome,
Correria do trabalho
mal pago
insalubre
pobre
precoce
Dos dias que findam sem lógica sem ação ou propósito
Ou dos casos mal amados
dos corpos nus ali debruçados
que com álcool embriagam
depois fogem
malditos, torpes
nunca percebi
sua existência atroz, louca e viciada.

Foi preciso um bofete,
o acaso pra emudecer meu mundo
e ouvir com calma aquele velho que veio do norte
enrugado
feio
sem sorte
        Falando duma poesia impura
        suja
        sem dono.
Poesia atemporal
que nasce agora
ou há 30 anos
numa fotografia qualquer
empoeirada.


É que nunca percebi
                         (com a correria que me consome e que só agora para)
que o velho de história triste
                         olhar medonho
que tirou minhas pernas, meu ar
                         seu velho enfadonho!
é aquele infeliz
de crina gris
de dentes amarelos
igual laranja podre
que tem sua poesia úmida
cheia de ruídos
de secreções
e odores
e quando criança
               filho de dona Alzira
da denúncia
do desassossego
dos desamores
corria seminu
naquela ilha de pretos velhos
serpentes
mitos
minas
tambores.


Seu nome
pobre insano
sequer me atrevo.
É que ainda reluto
asfíxico
mudo
díssono
sôfrego
com uma dor tremenda
                          parida
                         doente
         cheia de covardia.

Mas como não posso
deixar que esta agonia
minha vista embace
saio correndo pela rua
bambo
sem juízo
cego
sem disfarce,
e,
temendo gritar
e como tu, infeliz,
ganhar o choro
a esquizofrenia,
beijo o asfalto e uno minha saliva ao teu cuspe
                                           repugnante enlace,
                                           desespero faminto
                                      meu corpo em êxtase
                                             quase um enfarte.
                   Ira corroendo terra
                   noite estuprando dia:
                   Eu puro!
                   É que explode
                   em mim
                   poesia.

sábado, janeiro 29, 2011

inverno

Chega de despedidas
chega de tanta
saudade.

                                 Hoje o dia até que prometia sol.
                                 Veio a chuva.

Perdi o tato
pra certas coisas
uma delas este sentimentalismo a flor da pele
quase barato
coisa de quem se sente superior
olhar vago
mente elevada
coração bradicárdico.

                                 Hoje até que prometia sol
                                 eu é que estava já
                                 nublado.

E veio a chuva.
- Ore, é falta de Deus! Dizia minha mãe.
- É falta de mim, mãe.
- É saudade de mim.

                                Hoje o dia até que prometeu sol.
                                Eu que não vi...
                                Ainda sou chuva.

domingo, janeiro 23, 2011

grand finale

Blém-blém-blémbléim-blém. A igreja... Sete horas.

A cidade amanheceu vazia, cheia de ressaca. O sol da manhã ardia o asfalto coberto de tiras de papéis, latas e secreções...


Dia anterior


- Acode meu povo, repara que é briga!
- O quê? Quem foi?
- O Chico caiu de paulada no Manel ali no meio da praça, minha gente, corre pra apartar!
- Valei-me, vambora ligeiro que rebuliço com Chico é morte certa!


Minutos mais cedo


A praça lotada. Não via tanto furdunço assim fazia tempos. Era gente, suor, calor, cerveja quente e uma música qualquer que naquelas alturas ninguém sequer tinha noção do que se tratava, apenas passavam, pulavam, sujavam-se e faziam amizades sinceras de infância, tudo na espera da grande banda da noite – o “grand finale”.

Era carnaval, minha gente...

Desde cedo o frisson era geral. Vinha gente de toda parte: das cidades vizinhas, da capital, doutros Estados, vinha inclusive eu. Não pro carnaval, certamente; vinha porque coincidentemente tinha férias naquela ocasião e me furtava de saudade o peito. Saudade dos meus. Mas não podia deixar de compartilhar sensações e experiências no meio de todo aquele movimento. Estava sentado no banco do ônibus que vinha do aeroporto mais próximo para aquela cidadezinha e, atento, observei o diálogo.

- Eita, seu moço, ta viajando pra onde?
- Eu tô indo dar um pulo ali pra passar o carnaval.
- Mas o senhor ta indo mesmo só pra brincar o carnaval.
- Não rapaz, que é isso?! Eu não brinco carnaval! Carnaval pra mim é coisa séria!

De fato, era coisa séria por ali mesmo. Interditaram as ruas, pintaram as calçadas, encerraram cedo as lojas, até a Igreja fechou. Anunciaram que a missa do domingo fora excepcionalmente adiada. É que fica muita zoada na rua. Justificavam os fiéis já com a lata de cerveja na mão e com a cara toda suja de maisena. Sim, isso mesmo, toda suja. Carnaval ali era desse jeito: todo mundo se melava, mudava de sexo, mijava de madrugada na porta da casa dos parentes chatos e se dormia por onde dava mesmo. Noutro dia ninguém se lembrava de nada e seguiam adiante.

Foi no meio disto tudo que a banda tão esperada começou. Eram os fantásticos de não sei onde e cantavam uma coisa qualquer. O som era tão alto, tão absurdamente alto que tenho certeza que nenhuma viv’alma dava conta de entender o que era aquilo que gritavam. Mas quanto mais alto melhor, é festa afinal. Todos deveriam ficar embriagados, seja de álcool ou de labirintite mesmo. E no meio da celeuma, do empurra empurra, zás, o som ficou mudo. A sensação é a que de repente se fica oco, como se a música fosse um pesado e grosso fardo. E de fato era, só que naquelas condições ninguém chegava a qualquer refinamento filosófico.

- Calma, minha gente, é que o fio da guitarra torou*!

Foi meu juízo que “torou” naquela hora. Era demais. Peguei meu corpo e levei embora. No caminho de casa escutei um zum-zum-zum duma briga que foi parar no hospital, no necrotério e na delegacia. Mas tudo bem – diziam. Era carnaval.

Peguei no sono ligeiro, acordei sem ressaca e fui andar pela cidade na quarta-feira de cinzas...





*torar = forma não gramaticalmente correta do verbo romper, partir...

sexta-feira, janeiro 07, 2011

missiva póstuma

Gostaria ter sido apenas ficção. Apenas aqui e nunca mais.
Querido vovô,

Ontem viajando rumo a sua casa, lembrei o igual caminho inverso que fizemos juntos há vinte anos quando memoravelmente celebramos os seus setenta anos. E como filme, veio à mente todos os instantes que nós dividimos, desde a minha infância, contanto estrelas sentados à porta e ouvindo histórias mirabolantes dos tempos de outrora, passando pelo crucial instante que parti desta cidade – nossa primeira cisão – que, inocentemente, sequer imaginava que a partir daquele momento nossos encontros seriam apenas em minhas férias, afinal a vida acadêmica havia apenas começado.

Os anos passaram, vovô, e nunca perdi o encantamento da sua presença e de suas estórias, mesmo que por vezes repetidas, sempre soavam como ensinamento, como lição de vida, algo a ser seguido. Talvez, pela agitação da vida, do trabalho e de tudo que nos acerca, tenha perdido os olhos de criança que deixei com o senhor, aqui nesta cidade, guardado carinhosamente, sempre na esperança de me entregá-los novamente quando voltasse em definitivo. Falhei com o senhor. É que sua figura sempre fora a de um super herói! Super heróis são infalíveis, são imortais... Era só ilusão de menino.

Com o meu trabalho, aprendi cedo a lidar com a morte de outrem e encara-la com paciência e respeito, sempre cauto e seguro. Mas quando chegou a notícia, não pude evitar, a perplexidade habitou meu olhar. Doeu. Doeu pra valer. Não sei explicar o quanto. Não há palavras. Senti revolta, sabe vô. Por que o senhor não me esperou? Por que não me deixou ao menos tentar? Faço tanto pra muitos e logo com o senhor sequer puder lutar! Fiquei muito frustrado.

Então vieram as mensagens, os telefonemas. É assim, meu filho, temos que aceitar! Mas, vovô, eu estou aqui para lhe dizer veementemente que não aceito coisa alguma! Aceitar passivamente as coisas é concordar com as atrocidades do mundo, com a iniqüidade das pessoas, é compactuar com o malfazejo, com os contratempos e as intempéries e isto o senhor não me ensinou a ser! Sempre me disse que um homem de caráter e vergonha deve lutar pelos ideais e, de maneira alguma, deve aceitar que lhe tomem as rédeas da vida. O senhor foi um exemplo de tal conduta. Mesmo com a vida cheia de perdas precoces – seu pai, os irmãos, sobrinhos e o filho querido – nunca lhe foi empecilho ter fé, seguir adiante, lutar e vencer. Pelo contrário, o senhor mesmo sempre mantinha viva a lembrança de todos que partiram e assim nunca deixava que a morte lhe tomasse proveito ou zombasse de sua família. Isto jamais! Esta é uma lição, vô, que só aprendi agora, mesmo sem poder ouvi-la de sua boca. Morrer é apenas mudar o canal de comunicação. É deixar o ser humano físico e assumir a existência metafísica em que não há limites de corpo, de tempo ou espaço; é ser livre sem limites e habitar o coração de todos aqueles que guardarem em si uma lembrança carinhosa da fraterna convivência familiar, por mais fugaz que ela possa ser; é ser de fato imortal.

Então, vovô, deixe que levem este corpo atérmico, pálido e inerte. Ele é só testemunha da morte fisiológica. Este não é mais o senhor! É apenas composição orgânica que, por ser fruto da terra, retorna à terra em seu leito nefasto e morredouro que corrói os corpos e os corações dos homens de pouca fé e isto não somos nós. Somos fortes. Sei que paradoxalmente agora diz que está feliz por ver a família reunida. Estou aqui para selar este pacto com eles e com o senhor, viu. Não se preocupe, está tudo organizado! Pode seguir adiante, sem medo, porque aqui dentro, bem profundamente, o senhor continua mais vivo do que nunca.

Do neto que lhe adora.

sábado, dezembro 04, 2010

sem título e nada

Tic-tac, tic-tac, tic-tac. Nada de efeito. Tic-tac. Faz quase uma hora. Tic-tac, tic-tac. Há três dias, claro. Tic... Pausa. Tac. Precisa de corda o relógio. Tic sem Tac. Zzzzzzzzzzz. Há três dias o mesmo lençol morno, o cheiro de cama dormida, o ar empoeirado. Há uma hora mais um Rivotril... Há três dias um milhão e meio de tic-tacs; agora só, e nada de efeito.

Deitado no banco traseiro do carro via o emaranhado de fios nos postes em ritmo ondulatório contínuo, dançando à velocidade do carro do seu pai, viajando. Quieto percebeu que as coisas se moviam com o desejo dos olhos, afinal, o carro em movimento e ele, parado, tinha o mundo fugindo de si... Mesmo os postes, improváveis, fincados à terra, corriam. E se foi toda uma tarde. Acho que ali deu-se conta da relatividade das coisas. O tempo é o reverso do desejo. Concluiu. Logicamente não com este refinamento grafológico, afinal era criança, mas assim pensou. É que lhe intitularam autista. Gostava de ficar só, direcionava o ouvido a coisas imensuráveis, mantinha a mente num fio irreal de lógica e pensava em voz alta. Como dar satisfação lhe era fardo, aceitava modestamente seu autismo. Sobrava mais tempo e energia assim.

Cresceu no seu tempo e na perspectiva dos olhos e da mente, livres.

Há seis meses conhecera o amor de sua vida. O tempo parou. Há vinte e cinco anos e o mundo sempre fugindo de si. Mas há seis meses... Foi coisa de cinema, de predestinação: final de tarde, beira mar, só, tomava sua água de coco e se entregava ao acaso. Alguém se sentou ao lado. De onde veio, nunca percebeu. Um olhar vago e doce. E lhe sorriu. Trocaram os nomes, deram as mãos e não disseram mais nada. Assim ficaram, quietos, consumidos pelo mar e pelo calor de seus dedos.

Já era lua e se fitaram novamente, desta vez com menos doçura. Volúpia. Beijaram-se. E foi como beijar todo o oceano – molhado, profundo e infinito. Dali nunca mais se separariam.

Em menos de um mês já dividiam o mesmo apartamento, as contas, os lençóis e as secreções. Sem limite cronológico, sonhavam com o futuro concreto. Eram almas gêmeas. Soava esquisito. Afinal, quem nunca aceitou bem que as coisas ocorressem por força de destino, mas por meras escolhas, agora aceitava bem sua condição. É que estava estranhamente apaixonado. E assim pensava menos, e vivia mais. Nunca tinha estado assim, em estado de graça – uma explosão de sabores, de cheiros, de tato. Um lapso de felicidade que já durava cinco meses.

A velocidade supersônica da mente e do coração de repente freou. Há um mês, febre.

- Não quer um médico?! O desespero habitou seu olhar.
- Nada. Você me basta... Fitou-o docemente como a primeira vez e a aflição se abrandou.

Mais uma semana, piorou. Mais febre, tinha tosse e agora lhe queixava das dores, muitas dores. Vinha a fraqueza. Quase sem caminhar. E foram ao médico. O primeiro, virose. O segundo, bacteremia. O terceiro, Guillan-Barré. Pela dúvida, internaram. E vieram mais cinco. Puncionaram-lhe o corpo. Sugaram-lhe líquidos. Radiografaram-lhe até a alma. E mais dúvidas.

- É pneumonia. Quero uma broncoscopia! Um dizia.
- Se fizer, não resiste. Retrucava outro.

Duas semanas e o hospital uma Torre de Babel! Assim, o internamento na UTI foi inevitável. Os relatórios eram diários: paciente grave, diziam. Em dois dias e nada mudou exceto aquele superlativo que lhe soou uma hipérbole de loucura. Novo relatório. Gravíssimo! Menos de vinte e quatro horas e a ligação.

- Senhor, sinto muito...

Há três dias quem parou foi o mundo. Há três dias, quem lhe fugia pelas mãos, ligeiro, foi o tempo. Levou sua vida e os seis meses. Ficou nada. Sobrou-lhe apenas o relógio e seu barulho para assegurar que ainda permanecia vivo. Que apenas permanecia.

Agora, nada.

quarta-feira, outubro 20, 2010

cara, meu caro

Segunda- feira. Noite fria e barulhenta naquela São Paulo, vinte e três horas, quinze minutos, alguns segundos, pernas e gemidos.

- Não sei se é amor. Acho que isso não tem nome. Só sei que é bom...

Ela riu, virou o corpo, dormiu.

Ele, perplexo, levantou-se, vestiu a roupa e saiu.

Assim havia sido sua vida há tempos. Uma prostituta moderna. Ou melhor, rica. Amor tinha forma, medidas e, obviamente, preço (e ela, o seu). Sempre fora dona de suas vontades, exceto do seu corpo, posse de toda aquela metrópole. Mesmo quando a pele era mais rija e as carnes menos fartas, não se entregara a sentimentalismos convencionais ou sequer inclinara-se em conceitos pré fabricados. Pré moldados. Pré feitos. Prefeitos. Casas pré fabricadas. Concreto. Mutirão. Credo! Não gostava nem seus pés, imagina dos “prés”. Soava estranho. Démodé. Bem retrógrado e suburbano. E não lhe apetecia nada que a remetesse ao passado inglório da infância. Pobre. Precoce.

Cresceu puta, como a mãe, mas pela perspicácia adquirida do pai (estelionatário renomado), fugiu logo da rua. Tornou-se cara, meu caro. Somente as mais fartas contas bancárias lhe conheciam. Exclusiva de seus bens, deitou-se com o apartamento da Vila Nova Conceição, fez orgias com os vôos de primeira classe na Air France, gozou com o conversível de cifras milionárias e, com cada Gucci, Armani, Valentino, Gabbana e Lacroix das boutiques, praticou felação. Fez fama e fortuna. Jovem, dissimulada e sempre, chegaram-lhe, mesmo com os trinta e poucos, os calores e as decepções. Começou então a reposição hormonal e assim pôde manter a vagina úmida, pérvia, com o mesmo odor e furor lascivo teatral. Se havia algum prazer neste verossímil fingimento, sequer ela ousava dizer. Sua trajetória tão alheia a si chegou ao ponto de lhe roubar o ser e, agora, era apenas a outra.

Sem nome e com muito Chanel número cinco, sorvia a taça de Veuve Clicquot e lembrava da última visita a Paris enquanto alí embaixo lhe lambuzavam o sexo com saliva e nervosismo. Um arroubo de entusiasmo a assaltou da viagem. É que a língua penetrara mais profundo. Soou um ai. Então se contorceu e retesou as pernas. Ele ejaculou com a possibilidade dum orgasmo roubado. Era um cliente fácil. Dizia-se apaixonado, que tal? Ainda extasiado, disse-lhe algo que agora não se lembra bem do que se tratava, só recorda que achou pilhérico, e riu. E desmoronou.

Levantou ainda há pouco com ressaca, lavou o rosto, tomou o comprimido da juventude, esqueceu-se do mundo e voltou a viver.

sábado, setembro 25, 2010

amarelo

Outro dia estava quieto, parado, no meio da rua, sem intenções sombrias. Era ainda de tarde, sol forte (a luz aqui é doída, sabe). É chato esperar semáforos se abrirem. Hoje mais ainda que acordei ofendido. Pronto, verde. Pisei lento o asfalto fumegante e com o olhar vago, absorto, segui nobre, quando zás! passou uma menina em disparada, quase se esbarra em mim... Colérico, parei. E, imóvel, fixei o olhar na fitinha do seu cabelo que dançava com o aquele movimento. Era amarela! A fitinha era amarela! Dei uma risada. Nossa! Lembrei no instante de Ariela. “Quem nunca ouviu falar da Ariela? A menina da fitinha amarela. Sapeca, que corria no meio da fazenda, dava nó no rabo do porquinho, soltava papagaio...” Mamãe lia isto pra mim. Não lembro bem todos os detalhes da estória. Só sei que aquela fitinha amarela me assaltou tão impetuosamente, trazendo uma simplicidade tal de sentimento que, igualmente, tornei-me amarelo. Fiquei da cor da minha infância, da cor de minha mãe e do meu pequinês – o Ringo. E, puxado num novelo de lembranças, vem a figura de vovô. Ele e todas as suas tardes e tolices; sempre levava um picolé pro meu cachorrinho, fazia cafuné no bicho, só pra se lembrar de mim (que já morava noutra cidade). Ora, eu saio de casa e logo em seguida sou um cachorro! Gozado, sempre apago isto de mim.

Perdi a meninice cedo. Foi um parto a fórcipe, “a ferro”, como bem se diz por aí. Talvez por isso eu me esqueça de ser humano. De voltar em mim e ali desfrutar a mesma doçura de outrora. De estar quieto e feliz.

Mas nada me toma de efeito, nada. Tudo sempre recai com o peso insuportável da impossibilidade. Tudo lateja e arde como ferida aberta. Eu, que apenas quis dar um passeio pela cidade, agora estou aqui, pálido, ou melhor, amarelo, e sem saber o que fazer. Há tempos decidi ser só e não posso, e nem quero, que tomem de mim o tocar-dos-pés-no-chão. É fato. A experiência já deu provas: tudo que é sublime tem seu preço, e é caro. Tudo que é simples e leve voa. E não tenho asas. É esta agora a angústia deste poste no meio da rua que sou eu. E, apesar do emaranhado de fios, da eletricidade e das conversas, tudo apenas passa por mim. Apenas passa. Apenas deveria passar, mas aquela fitinha...

Abre o sinal, tocam a buzina. Atordoado, recuo. Viro. Sigo. E sumo.

quarta-feira, setembro 22, 2010

inexistir

Não acabe com minha poesia, não corra com o vermelho pulsante de minhas artérias já dilaceradas por teu amor pujante e assassino, não fuja de mim...
Se ando calado, é que sou vazio. Tombaram meu corpo no caminho e agora me batem a cara como um cadáver de olhos vis. Se me rompe o peito a angústia, é que não sou nada além de nós. Estou cansado. Cansado mesmo. Cansado de escrever, de pensar, de tentar trazer à tona o que me traz de incerto a existência. Não espero que eu volte a mim tão cedo. Não. É que, vagante espírito, sei que posso ser nunca e nada, apenas hiato, apenas distância e memória (ou esquecimento, se assim quiser). Sei que assim posso ser traços, palavras soltas, sussurros e onomatopéias. Assim posso alcançar o sublime inexistir. Assim posso ser só. E só. E pó.
Chega o vento.
- Ffffuuuuuuu!
E agora nada.