Tenho tanta saudade de mim...

terça-feira, agosto 05, 2014

O passarinho

Pra quem tu cantas passarinho?
Todas as manhãs desta ilha
Nas alturas dos arranha-céus?
Será pra mim que ouço mais alto
Ou porque no silêncio que calo
Teu cantar parece maior?

Certo como o sol
É o despertar de sua cadenciada
Música de singela pureza
Parida sob luz de delicado fulgor...

Sei que é para mim que cantas paz
E segues assobiando então
Cada instante de minha existência fugaz
Marcando cada segundo a mais
Uma batida imperfeita de coração.

segunda-feira, agosto 04, 2014

Um novo amor

Tens um novo amor
Carregas junto no peito
Artimanhas e dor
Mas tens um novo amor
Está ali pendente
Não é inteiro pujante
Apenas presente
Mas tens um novo amor
Será amor ardente?
Ou falta de amor próprio
                         da gente?

A flor ruiva

A flor silvestre
Crescia entre heras
Ervas daninhas, ciprestes
Sinuoso caule
Dançava nua
No seu habitat campestre
Desabrochava ruiva
Sob carícias destas mãos
As que seu perfume empresta.

quinta-feira, julho 31, 2014

Acordar ao teu lado

Não tem forma nem nome
Nasce do acaso
E no acaso some
Tão natural – abrir teus olhos
                                  de sono
Nas impróprias manhãs
Cuja intensa luz
Desvirgina vidraças
Atinge devassa
Tua roupa blue
Nossas faces se colam
E o tesão nos toma
No instante ato
Que tua boca
À minha se assoma.

segunda-feira, julho 28, 2014

Bailarina

Nestes brancos delicados
Pés nus descalços
Beijo com tão grande
Desejo incontido
De ter ora comigo
O roçar das madrugadas
De nossas peles virgens
Do toque recíproco
De nós dois.

Nestes pés opacos
Delicados nus descalços
Com tão grande
Beijo incontido
Salivo o desejo
De unir os corpos
Nossos
Inda ardentes
Vivos sedentos
Sós.

Nestes pés delicados
Que primeiro viram
As minhas mãos
Misturando teu sangue
Tua embriaguez
Hoje me perde a sensatez
Em teu sorriso âmbar
Junto com a pálida tez
Que virgem se fez
Para com minha pele
Ainda casar.

quarta-feira, julho 23, 2014

Notívago

Será veio ou rio
Que desce cristal na face
Será feio ou frio
No meio do nada nasce
Se é falta de sono, crio
O poema que teu corpo abrace

terça-feira, julho 15, 2014

Cantiga das manhãs (despertar)

Por esta janela
O sol já não se insinua ou arde
Me beija o mar por ela
Com sua brisa suave, sem alarde

Por este mesmo vão
Que ora descortina os concretos da cidade
As luzes brotam não do céu, mas do chão
E nesta hora ele me invade

Inda no silêncio da noite
Vem me despertar este canto
Que tampouco é do caos donde habito
Nem da desordem do peito que espanto

É canto alegre da vida
Cantarolando o doce sertão
Vem de longe, vem agreste
no bico que a este som empreste
me assobiando enfático refrão:
Meu filho, desperta já
não há mundo sem ti, não!

domingo, julho 13, 2014

Sou dele

Ele é o meu senhor
De tudo é atento
Não tem pena
E lhe falta pudor
Não encena
Me destreina
Se suspiro,
Vem calar com austero rigor!

Ele é sim o meu senhor
Vem! Me domina
Com olhar felino
me fulmina
Fugir não posso
(e nem quero)
É que na angústia, no desespero
Ele se faz maior.

Oh, meu senhor
Estou inteiramente entregue
Aos seus sabores
Ao seu pendor
Sei que nunca está distante
E às vezes é ágil e fugaz
Outras, manso, isento e atroz
Mas consigo repouso e levanto
E sonho, sonho longe, sonho alto,
Numa terra onde corro livre e veloz.

É ele o meu senhor: o tempo
Invisível e leve como pena,
Implacável qual muralha de pedra
Dura, firme, sem fenda,
É a certeza do infindo existir.
Das transgressões do corpo e da alma
Ele será juiz
E da (tua) espera lenta
Será da vida o elixir.

quarta-feira, julho 09, 2014

quinta-feira, julho 03, 2014

Litania das manhãs

De quem é esta manhã
Que os tímidos raios o céu domina
Em meus sonhos inocentes fascina
E abranda galopante afã?

De quem é este beijo
Que molha meus lábios suave
Suga minha língua selvagem
Penetrando com infindo desejo?

De quem é este olhar
Que me despe num só segundo
Cujo fim é improvável, é profundo
E eleva do chão meu andar?

De quem é esta pele
O macio veludo sequer a imita
E com a minha arrepia e excita
Na ausência a distância compele?

De quem é você, amor
Que outrora fora meu, compraz
Hoje habita outro ser fugaz
E se esconde em solitária dor?

Quem somos nós, enfim
Só resquício dum passado remoto
Ou chama ardente, iminente terremoto
Nos sísmicos dias deste estranho porvir?

segunda-feira, junho 30, 2014

Reticência

O amor cansa?
O corpo descansa?
          A alma inda alcança?
          Ainda há enfim esperança?
                                          Pensa...

sábado, junho 28, 2014

Pequeno Livro de Receitas

Do que é feito o amor?
Das inclinações e rotinas?
Desta manhã que a janela descortina?
Do fel sabor daquel’último beijo?
Do que é o amor é feito?

Será do café que exala da cozinha
Nos domingos claros do verão?
Das escovas de dente unidas
e nossas roupas entrelaçadas no chão?
Do que é feito então?

Dos meus pés com os teus em um nó?
Do frio das cinco que me abraçavas ligeiro?
Do nosso cheiro de sexo suado?
Do pavor me atingindo certeiro
E a distância rompendo sem dó?
É feito disto só?
Não creio...

quarta-feira, junho 25, 2014

Alvorecer

O que vem antes do sol?
Na penumbra do que é nem dia nem noite
Quando olho ao longe no horizonte
e me perco no que me deixou.

O que vem antes do sol?
Será que o dia hoje nasce?
E os raios minha vista embace
Pra me emprestar um brilho qualquer?

O que vem antes do sol?
Vem só labuta, trabalho?
Rotina do dia-a-dia
Ou vem nele a tona o passado?

O que vem antes do sol?
Não é vida, nem é morte
Será tristeza ou falta de sorte?
Ou mesmo a esperança de seguir?

O que vem antes do sol?
Penso, não acho resposta
Então paro, respiro (e te abraço distante),
Esperando ele alvorecer enfim.

E o que virá depois do sol?

segunda-feira, junho 23, 2014

Saudade (2)


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Saudade

Quando vem desesperada, é posse
Se sorrateira noturna, medo
Se nascer na alvorada, é fossa
Se dormir ao seu lado, aconchego
Se irar quando olho, ciúmes
E se acalmar no longe, sossego.
Agora,
Se chegar tímida e sinuosa
Meio de lado, sem jeito
Tornando-se a dona do peito
Acelerando o ritmo devagar
Pare, meu velho amigo
Abrande a voz
Abaixe o olhar
Ela existe de verdade
Não respeita gênero ou idade
Infinita, doce ou cruel,
Ela se chama saudade.

domingo, junho 22, 2014

Silêncio


Ele segue o sonho mais profundo
E levanta com os primeiros raios do sol
Sei que dele carece o mundo
E repleto na (c)alma só


Domingo

Não gosto de domingos
Domingos estão entre a festa e o trabalho
Estão entre o futuro e o passado
São dias flácidos
São tardes mornas
São noites breves
Nem começam, já terminam
Domingos são despedidas.

terça-feira, junho 10, 2014

lágrimas

Cristais fluidos que refletem cor alguma
Veio que brota de fonte improvável
Refúgio de uns em tardes cinza escuro
Extraindo as gotas homeopáticas
                                        do sofrimento.

sexta-feira, junho 06, 2014

Montevideo, adiós

Adiós Montevideo
A ti ni el tiempo se volvió
Del amor que supiera y hoy se perdió
En sueños locos que juntos
Se me lo quitó.

Adiós Montevideo
A ti vengo decir nomás:
No creo que vuelvas como pensé jamás
Porque lejos y lejos de mí ya sé que lo estás
A sus manos la mía añadir, no se podrá.

Adiós Montevideo
Es que no tengo la perfecta salud
No duermo, ni como, ni tengo actitud
De siquiera aceptar que es insoportable vivir
Seguir es imposible sin ti

Adiós Montevideo
Sus ramblas y sus tardes con puestas de sol
Solito me entierro al borde del “mar” como árbol
Y ofrezco al viento mis hojas sin color
Para que lleve el dolor que mis gajos rompió.