Tenho tanta saudade de mim...

terça-feira, dezembro 27, 2011

Carlos e Juliana


“Eu queria ter te conhecido de outro jeito. Queria que tudo tivesse sido diferente. Sempre idealizei meus amores e o mais perfeito de todos nunca imaginei assim. O mais perfeito de todos não teria como cenário nossas brigas e lágrimas. Perdi a paz, perdemos a paz, meu amor. Não vejo mais sentido para que nossas vidas sigam neste paralelo de desejos que jamais se cruzarão, sequer no infinito. Não quero mais isso. Não quero nós. Não quero eu.”

Juliana lia trêmula as palavras marcadas fortemente no papel amarrotado deixado num canto do quarto enquanto ainda podia ouvir o grito de Carlos ao se atirar do décimo segundo andar daquele prédio que havia se tornado nos últimos meses a sede de infernos e abismos para os dois.

Não morreu por amor. Morreu pela frustração de não o ter, pelo desencanto, pelo desassossego. Morreu jovem ao menos. Não experimentou a triste constatação de que todo este fogo (que nasce da juventude), fogo de amor sincero que arde enquanto dura e dura o infinito dum beijo ou da transa boa, não passa de percepções erradas, inocentes e precoces da realidade dos fatos. O tempo é implacável. Nada suporta seu peso sequer os amores eternos. Viram sei lá o que, uma coisa acomodada que se leva com a barriga atribuindo a eles um eufemismo singelo da frigidez e rigidez articular matinal: amizade. Ficam-se velhos, mas amigos, ok? Pior mesmo é quando se ouvem absurdos sobre relações incestuosas dos velhinhos: agora são como dois irmãos! Valei-nos, Pai. A impotência não é a castração da hombridade, da virilidade, mesmo que senil. Afinal, há músculos diversos que podem exercer funções mil, proporcionando os mesmo prazeres do membro rijo, senão mais. Duvidam? Mirem no espelho e abram a boca: ei-la!

Sorte mesmo a de Carlos.

Veio o rabecão do IML e levou as sobras do rapaz suicida. Juliana enxugou as lágrimas (as últimas), trocou a roupa, tomou seu comprimido e dormiu, agora com mais espaço na cama.

sexta-feira, dezembro 02, 2011

meus oito anos

A tarde quente
do verão equatorial,
com os sons dos carros,
em uníssono caos,
invadiam a janela, brutal,
ferviam meu corpo nu
coberto de suor, de sal
correndo ligeiro entr'os pelos,
nas curvas, até a virilha e o pau.

São estes os vilões: os dedos!
dantes débeis e ingênuos,
das carícias de pequeno
(desde os oitos anos exatos)
no sexo frágil - púbere falo,
levando as pernas em riste
neste rítmico embalo
do desatar frenético de fivelas
trazendo o gozo em jato.

São eles os culpados,
Seus discípulos do Diabo!
Que mesmo das regras, dos ditados:
que em mãos enfadonhas
crescem pelos, verrugas e cravos!
Transgrediam adictos,
rompendo sermões nefastos
dos padres em missas de domingo
que a mim dirigiam o veredito:
É coisa do demônio, filho!
É o mais puro pecado!

terça-feira, setembro 27, 2011

io non fumo

Novos ares são fontes constantes de estranhamento. Eu, ser viajante perdido pelo mundo, sozinho com minhas inquietações, parado em frente à uma banca de revista, percebi o andar manco, anêmico e desorientado duma velha. Era cinco horas da tarde, sol ainda a pino por aqui. Um domingo, sinos tocando: ela vai à missa!

Deixei a velha em paz e voltei a perceber o meu entorno. Fazia calor e as pessoas daqui fedem mais do que o habitual neste período do ano. Fedem mesmo. Exalam uma podridão tal que em certo momento percebe-se uma nuvem cinza que lhes encobre como fumaça de cigarro. E talvez até seja mesmo. Campanhas antifumo não funcionam nestas bandas de cá. Outro dia vi um cartaz: Eu não fumo! Do lado, um lixeiro com pelo menos quarenta e duas bitucas de cigarro. Tive a pachorra de contar. Até ri. Pior: na frente de um hospital. De câncer! É que fumam desde a escola... Meu Deus! Se na minha escola tivesse um guri com um cigarro na boca: Bomba! Bomba! Corram, chamem os pais! Conselho de classe! (Será que ainda existe isso? Conselho de classe?). Aqui não, aqui é moderno, faz parte da revolução da independência-sexual-social-juvenil. Se é que esta também existiu. Bebe-se, fuma-se, transgrede-se, fura-se fila, nega-se assento aos velhos nos ônibus, ok! É a era vinte e um. Geração xis, ípsilon, zê! E eu que nos meus parcos conhecimentos imaginava que a sociedade se segregava entre os xis-xis e xis-ípsilon, salvo algumas aberrações genéticas, é claro.

Esperei o sinal abrir e atravessei a rua. Logo na esquina, um bar: desce aí uma gelada! Com um calor infernal daqueles, desceu mesmo, do jeito que estava, se gelada ou meia boca, foi. Era, segundo informação precisa do copo, zero vírgula quarenta e cinco mililitros. Uma boa quantidade a ser apreciada num fim de tarde. Melhor seria se fosse à beira do mar e com pessoas falando em português, mas nem tudo pode ser perfeito. Os sinos deram uma segunda chamada. Aqui eles chamam três vezes: 1- olha, vai começar; 2- ok, galera, venham logo, é sério; 3- se não chegarem o padre vai excomungar todos vocês, viu! Semana passada fui a uma missa, afinal terra do Papa, né. Mas como o Papa aqui não é lá tão pop assim, representei 10% da plateia, não que eu seja gordo, não estou contando em área corporal, oras, é em números mesmo. Uma frustração: sequer sair à francesa pude. Garçom, manda mais meio litro! Enche um pouquinho mais esse copo aí que dá!

Num intervalo de aproximadamente meia hora, a velha manca e meio estrábica (que só agora deu pra perceber) percorreu uma distância de aproximadamente duzentos metros. Lógico, ajudada pelas muletas. Que missa, o quê! Ela entrou foi no bar, no meu bar! Gritou uma coisa qualquer lá dentro e na mesma hora lhe trouxeram um copázio de cerveja bem maior que o meu. A velha virou este copo numa velocidade tal que até hoje vi poucos fazerem. Soltou um Arhhhh! tão aliviado que parecia o néctar dos deuses. No fim, bateu brutamente o copo na mesa, olhou desconfiada para cada lado e saiu fazendo o igual caminho inverso.

Fiquei atônito! Olha, quase que aplaudia! No meio daquele entusiasmo, dum êxtase quase orgásmico de congraçamento de Deus com os homens, vem e me bate o ombro alguém que me pede um isqueiro. Uma broxada infeliz! Filho-duma-qualquer! Bem devagar viro. Fito um indivíduo de um metro e setenta e pouco de altura com um malboro grudado na boca – nem tirou pra falar: se tinha quinze anos era muito. Pê da vida pelo com meu coito interrompido, respondo: io non fumo!

sexta-feira, setembro 02, 2011

quase morto

                             Hoje escrevi um verso torto:
                             não é redondo, nem curvo, nem roto
            não tem inicio, só meio - meio torto
            como um velho que caminha manco, sozinho, absorto,
                               num semblante pálido, sem graça, quase insosso
                              da velhice flácida, passada, esquecida - um quase morto.



quinta-feira, abril 28, 2011

a infância do meu pai

Ao meu amado pai que outro dia, visitando a casa de seu padrinho, disse-me que procurava sua tia e sua infância por detrás daquelas portas antigas.


Atrás daquela porta velha sem trinco
jazia a infância do meu pai.
Esquecida estava nas suas memórias de menino
sua vó Amélia ali, sentada, quieta, sorrindo.
Estava também o seu pião de madeira,
talhado a mão pelo Zeca Texeira,
e no mesmo canto da mente,
numa caixa bem juntinhos,
dormiam uma pipa, um balanço
e, feito de lata de óleo de cozinha
com rodas de chinela havaiana
puxado por um cordel, o seu carrinho.

E só agora naquele vão sujo com poeira
da porta velha sem trinco
carcomida nas beiras
que levava a um quarto
cuja luz se acanha
da casa de portão largo
quase de esquina
com a rua que o nome esqueço
e outra, a Zoé Cerveira,
no bairro decadente da Alemanha
meu pai se achou de novo criança.

Aquela porta era suja mesmo de tempo:
escondia não somente o pó e coisas velhas
dos tempos de sua vó,
mas das disputas de peteca, de bola e outras parelhas
que fizeram brotar naquela tarde a meninice largada no esquecimento;
e que agora adulto, vago e sozinho
caminhando entre paredes e assombros que desde pequeno
guardando no peito seco e mofino
o que de idos tempos persiste voraz, canino,
que é o medo de perder a voz, o raciocínio
ou de ti, passado, seu encantamento.

sexta-feira, abril 15, 2011

poesia imunda

            A velha não cabia num poema.
            Tão suja, cheia de mazela,
com seus resmungos, gritos de dor
                                          e mais velha.
Sua mama em carne viva, ulcerada
                                          e amarela
consumida pelo tumor - doença imunda
                                          e que nem sabe ela
deixou aquilo crescer em seu corpo como bicho,
                                          sem noção,
                                          quase cadela
explodindo em podridão,asco, horror
                                          necrose fétida;
que perturba minha paciência, meu sono,
                                        sua néscia!

         Agora, sem paz
         escrevo rude, depressa
         e perplexo questiono:
         se o poema que componho
        cabe tamanho assombro
        desta tua doença maléfica?

Ora pois, se é fato e verdade
que a poesia é livre
transita mundos e épocas sempre vívida, sem idade,
revolve as imundícies humanas, suas vísceras e entranhas,
que por razão não absurda, nada mais me estranha.
Já que se poesia não discrimina, nem é ortodoxa, tampouco contida,
por que haveria de ser
que esta pobre velha a sofrer
não tivesse no poema sua ferida?

domingo, abril 10, 2011

amor terminal

Não chores, meu amor,
não chores mais
pela saudade triste
pelo nefasto vão
que nos separa
por mais de 1000km
que a distância insiste
desta cidade vil até o Maranhão.


Não és tu quem é doente, não
nem quem sofre de maus humores
que corroem a alma,
definham o corpo,
matam a ilusão.
Sou eu o câncer enraizado,
sou eu a peste em ressurreição
que das mortes épicas da Europa,
ao castigo diuturno do Sertão,
apunhalam minha medula,
                           infectam minha carne,
                           destroem meu pulmão.

Não chores viu, não chores não:
eu cá que sou terminal
e tu és o redentor.
Em mim habita este mal que
de minha existência é feitor:
                               das suas mãos brotam a agonia
                               dos seu olhos, meu furor
                               da sua ira, minha febre,
                               da minha doença, por ti,
                               o meu amor.

Não chores, meu bem, não mais
eu já suplico pelo ópio, pela morfina, pela paz
não sossego, nem durmo,
nem sinto pena do meu fim.
Sei que em breve minha dor,
minha dispneia, meu palor,
meus fluidos hemáticos
serão findados num exato prazo
que esta distância se extinguir.
Eis portanto a minha cura,
pois no longe sou loucura,
já que te ti sou metastático.

explode a poesia

Ao poeta Ferreira Gullar que certo dia me emudeceu.

Ele me deixou sem voz
             sem rumo.
             Sempre esteve ali,
             poesia latente, insone.
Eu que na correria
nunca vira.
Eu que na correria que me consome
Nunca deixei gritar sua voz
                                   sem pudor
                                   dilatada e infame
                                   Soar o desejo do mundo,
                                   desejo do abismo,
                                   do caos e da fome.
Romper ligeiro o que me espanta
                                   e afronta.
Extraindo o fel
               o cerne
               o sangue
               o gozo
               o sumo.
Mas agora
   mudo
     sozinho
       sem rumo,
           sumo.


Eu que na correria que me consome,
Correria do trabalho
mal pago
insalubre
pobre
precoce
Dos dias que findam sem lógica sem ação ou propósito
Ou dos casos mal amados
dos corpos nus ali debruçados
que com álcool embriagam
depois fogem
malditos, torpes
nunca percebi
sua existência atroz, louca e viciada.

Foi preciso um bofete,
o acaso pra emudecer meu mundo
e ouvir com calma aquele velho que veio do norte
enrugado
feio
sem sorte
        Falando duma poesia impura
        suja
        sem dono.
Poesia atemporal
que nasce agora
ou há 30 anos
numa fotografia qualquer
empoeirada.


É que nunca percebi
                         (com a correria que me consome e que só agora para)
que o velho de história triste
                         olhar medonho
que tirou minhas pernas, meu ar
                         seu velho enfadonho!
é aquele infeliz
de crina gris
de dentes amarelos
igual laranja podre
que tem sua poesia úmida
cheia de ruídos
de secreções
e odores
e quando criança
               filho de dona Alzira
da denúncia
do desassossego
dos desamores
corria seminu
naquela ilha de pretos velhos
serpentes
mitos
minas
tambores.


Seu nome
pobre insano
sequer me atrevo.
É que ainda reluto
asfíxico
mudo
díssono
sôfrego
com uma dor tremenda
                          parida
                         doente
         cheia de covardia.

Mas como não posso
deixar que esta agonia
minha vista embace
saio correndo pela rua
bambo
sem juízo
cego
sem disfarce,
e,
temendo gritar
e como tu, infeliz,
ganhar o choro
a esquizofrenia,
beijo o asfalto e uno minha saliva ao teu cuspe
                                           repugnante enlace,
                                           desespero faminto
                                      meu corpo em êxtase
                                             quase um enfarte.
                   Ira corroendo terra
                   noite estuprando dia:
                   Eu puro!
                   É que explode
                   em mim
                   poesia.

sábado, janeiro 29, 2011

inverno

Chega de despedidas
chega de tanta
saudade.

                                 Hoje o dia até que prometia sol.
                                 Veio a chuva.

Perdi o tato
pra certas coisas
uma delas este sentimentalismo a flor da pele
quase barato
coisa de quem se sente superior
olhar vago
mente elevada
coração bradicárdico.

                                 Hoje até que prometia sol
                                 eu é que estava já
                                 nublado.

E veio a chuva.
- Ore, é falta de Deus! Dizia minha mãe.
- É falta de mim, mãe.
- É saudade de mim.

                                Hoje o dia até que prometeu sol.
                                Eu que não vi...
                                Ainda sou chuva.

domingo, janeiro 23, 2011

grand finale

Blém-blém-blémbléim-blém. A igreja... Sete horas.

A cidade amanheceu vazia, cheia de ressaca. O sol da manhã ardia o asfalto coberto de tiras de papéis, latas e secreções...


Dia anterior


- Acode meu povo, repara que é briga!
- O quê? Quem foi?
- O Chico caiu de paulada no Manel ali no meio da praça, minha gente, corre pra apartar!
- Valei-me, vambora ligeiro que rebuliço com Chico é morte certa!


Minutos mais cedo


A praça lotada. Não via tanto furdunço assim fazia tempos. Era gente, suor, calor, cerveja quente e uma música qualquer que naquelas alturas ninguém sequer tinha noção do que se tratava, apenas passavam, pulavam, sujavam-se e faziam amizades sinceras de infância, tudo na espera da grande banda da noite – o “grand finale”.

Era carnaval, minha gente...

Desde cedo o frisson era geral. Vinha gente de toda parte: das cidades vizinhas, da capital, doutros Estados, vinha inclusive eu. Não pro carnaval, certamente; vinha porque coincidentemente tinha férias naquela ocasião e me furtava de saudade o peito. Saudade dos meus. Mas não podia deixar de compartilhar sensações e experiências no meio de todo aquele movimento. Estava sentado no banco do ônibus que vinha do aeroporto mais próximo para aquela cidadezinha e, atento, observei o diálogo.

- Eita, seu moço, ta viajando pra onde?
- Eu tô indo dar um pulo ali pra passar o carnaval.
- Mas o senhor ta indo mesmo só pra brincar o carnaval.
- Não rapaz, que é isso?! Eu não brinco carnaval! Carnaval pra mim é coisa séria!

De fato, era coisa séria por ali mesmo. Interditaram as ruas, pintaram as calçadas, encerraram cedo as lojas, até a Igreja fechou. Anunciaram que a missa do domingo fora excepcionalmente adiada. É que fica muita zoada na rua. Justificavam os fiéis já com a lata de cerveja na mão e com a cara toda suja de maisena. Sim, isso mesmo, toda suja. Carnaval ali era desse jeito: todo mundo se melava, mudava de sexo, mijava de madrugada na porta da casa dos parentes chatos e se dormia por onde dava mesmo. Noutro dia ninguém se lembrava de nada e seguiam adiante.

Foi no meio disto tudo que a banda tão esperada começou. Eram os fantásticos de não sei onde e cantavam uma coisa qualquer. O som era tão alto, tão absurdamente alto que tenho certeza que nenhuma viv’alma dava conta de entender o que era aquilo que gritavam. Mas quanto mais alto melhor, é festa afinal. Todos deveriam ficar embriagados, seja de álcool ou de labirintite mesmo. E no meio da celeuma, do empurra empurra, zás, o som ficou mudo. A sensação é a que de repente se fica oco, como se a música fosse um pesado e grosso fardo. E de fato era, só que naquelas condições ninguém chegava a qualquer refinamento filosófico.

- Calma, minha gente, é que o fio da guitarra torou*!

Foi meu juízo que “torou” naquela hora. Era demais. Peguei meu corpo e levei embora. No caminho de casa escutei um zum-zum-zum duma briga que foi parar no hospital, no necrotério e na delegacia. Mas tudo bem – diziam. Era carnaval.

Peguei no sono ligeiro, acordei sem ressaca e fui andar pela cidade na quarta-feira de cinzas...





*torar = forma não gramaticalmente correta do verbo romper, partir...

sexta-feira, janeiro 07, 2011

missiva póstuma

Gostaria ter sido apenas ficção. Apenas aqui e nunca mais.
Querido vovô,

Ontem viajando rumo a sua casa, lembrei o igual caminho inverso que fizemos juntos há vinte anos quando memoravelmente celebramos os seus setenta anos. E como filme, veio à mente todos os instantes que nós dividimos, desde a minha infância, contanto estrelas sentados à porta e ouvindo histórias mirabolantes dos tempos de outrora, passando pelo crucial instante que parti desta cidade – nossa primeira cisão – que, inocentemente, sequer imaginava que a partir daquele momento nossos encontros seriam apenas em minhas férias, afinal a vida acadêmica havia apenas começado.

Os anos passaram, vovô, e nunca perdi o encantamento da sua presença e de suas estórias, mesmo que por vezes repetidas, sempre soavam como ensinamento, como lição de vida, algo a ser seguido. Talvez, pela agitação da vida, do trabalho e de tudo que nos acerca, tenha perdido os olhos de criança que deixei com o senhor, aqui nesta cidade, guardado carinhosamente, sempre na esperança de me entregá-los novamente quando voltasse em definitivo. Falhei com o senhor. É que sua figura sempre fora a de um super herói! Super heróis são infalíveis, são imortais... Era só ilusão de menino.

Com o meu trabalho, aprendi cedo a lidar com a morte de outrem e encara-la com paciência e respeito, sempre cauto e seguro. Mas quando chegou a notícia, não pude evitar, a perplexidade habitou meu olhar. Doeu. Doeu pra valer. Não sei explicar o quanto. Não há palavras. Senti revolta, sabe vô. Por que o senhor não me esperou? Por que não me deixou ao menos tentar? Faço tanto pra muitos e logo com o senhor sequer puder lutar! Fiquei muito frustrado.

Então vieram as mensagens, os telefonemas. É assim, meu filho, temos que aceitar! Mas, vovô, eu estou aqui para lhe dizer veementemente que não aceito coisa alguma! Aceitar passivamente as coisas é concordar com as atrocidades do mundo, com a iniqüidade das pessoas, é compactuar com o malfazejo, com os contratempos e as intempéries e isto o senhor não me ensinou a ser! Sempre me disse que um homem de caráter e vergonha deve lutar pelos ideais e, de maneira alguma, deve aceitar que lhe tomem as rédeas da vida. O senhor foi um exemplo de tal conduta. Mesmo com a vida cheia de perdas precoces – seu pai, os irmãos, sobrinhos e o filho querido – nunca lhe foi empecilho ter fé, seguir adiante, lutar e vencer. Pelo contrário, o senhor mesmo sempre mantinha viva a lembrança de todos que partiram e assim nunca deixava que a morte lhe tomasse proveito ou zombasse de sua família. Isto jamais! Esta é uma lição, vô, que só aprendi agora, mesmo sem poder ouvi-la de sua boca. Morrer é apenas mudar o canal de comunicação. É deixar o ser humano físico e assumir a existência metafísica em que não há limites de corpo, de tempo ou espaço; é ser livre sem limites e habitar o coração de todos aqueles que guardarem em si uma lembrança carinhosa da fraterna convivência familiar, por mais fugaz que ela possa ser; é ser de fato imortal.

Então, vovô, deixe que levem este corpo atérmico, pálido e inerte. Ele é só testemunha da morte fisiológica. Este não é mais o senhor! É apenas composição orgânica que, por ser fruto da terra, retorna à terra em seu leito nefasto e morredouro que corrói os corpos e os corações dos homens de pouca fé e isto não somos nós. Somos fortes. Sei que paradoxalmente agora diz que está feliz por ver a família reunida. Estou aqui para selar este pacto com eles e com o senhor, viu. Não se preocupe, está tudo organizado! Pode seguir adiante, sem medo, porque aqui dentro, bem profundamente, o senhor continua mais vivo do que nunca.

Do neto que lhe adora.

sábado, dezembro 04, 2010

sem título e nada

Tic-tac, tic-tac, tic-tac. Nada de efeito. Tic-tac. Faz quase uma hora. Tic-tac, tic-tac. Há três dias, claro. Tic... Pausa. Tac. Precisa de corda o relógio. Tic sem Tac. Zzzzzzzzzzz. Há três dias o mesmo lençol morno, o cheiro de cama dormida, o ar empoeirado. Há uma hora mais um Rivotril... Há três dias um milhão e meio de tic-tacs; agora só, e nada de efeito.

Deitado no banco traseiro do carro via o emaranhado de fios nos postes em ritmo ondulatório contínuo, dançando à velocidade do carro do seu pai, viajando. Quieto percebeu que as coisas se moviam com o desejo dos olhos, afinal, o carro em movimento e ele, parado, tinha o mundo fugindo de si... Mesmo os postes, improváveis, fincados à terra, corriam. E se foi toda uma tarde. Acho que ali deu-se conta da relatividade das coisas. O tempo é o reverso do desejo. Concluiu. Logicamente não com este refinamento grafológico, afinal era criança, mas assim pensou. É que lhe intitularam autista. Gostava de ficar só, direcionava o ouvido a coisas imensuráveis, mantinha a mente num fio irreal de lógica e pensava em voz alta. Como dar satisfação lhe era fardo, aceitava modestamente seu autismo. Sobrava mais tempo e energia assim.

Cresceu no seu tempo e na perspectiva dos olhos e da mente, livres.

Há seis meses conhecera o amor de sua vida. O tempo parou. Há vinte e cinco anos e o mundo sempre fugindo de si. Mas há seis meses... Foi coisa de cinema, de predestinação: final de tarde, beira mar, só, tomava sua água de coco e se entregava ao acaso. Alguém se sentou ao lado. De onde veio, nunca percebeu. Um olhar vago e doce. E lhe sorriu. Trocaram os nomes, deram as mãos e não disseram mais nada. Assim ficaram, quietos, consumidos pelo mar e pelo calor de seus dedos.

Já era lua e se fitaram novamente, desta vez com menos doçura. Volúpia. Beijaram-se. E foi como beijar todo o oceano – molhado, profundo e infinito. Dali nunca mais se separariam.

Em menos de um mês já dividiam o mesmo apartamento, as contas, os lençóis e as secreções. Sem limite cronológico, sonhavam com o futuro concreto. Eram almas gêmeas. Soava esquisito. Afinal, quem nunca aceitou bem que as coisas ocorressem por força de destino, mas por meras escolhas, agora aceitava bem sua condição. É que estava estranhamente apaixonado. E assim pensava menos, e vivia mais. Nunca tinha estado assim, em estado de graça – uma explosão de sabores, de cheiros, de tato. Um lapso de felicidade que já durava cinco meses.

A velocidade supersônica da mente e do coração de repente freou. Há um mês, febre.

- Não quer um médico?! O desespero habitou seu olhar.
- Nada. Você me basta... Fitou-o docemente como a primeira vez e a aflição se abrandou.

Mais uma semana, piorou. Mais febre, tinha tosse e agora lhe queixava das dores, muitas dores. Vinha a fraqueza. Quase sem caminhar. E foram ao médico. O primeiro, virose. O segundo, bacteremia. O terceiro, Guillan-Barré. Pela dúvida, internaram. E vieram mais cinco. Puncionaram-lhe o corpo. Sugaram-lhe líquidos. Radiografaram-lhe até a alma. E mais dúvidas.

- É pneumonia. Quero uma broncoscopia! Um dizia.
- Se fizer, não resiste. Retrucava outro.

Duas semanas e o hospital uma Torre de Babel! Assim, o internamento na UTI foi inevitável. Os relatórios eram diários: paciente grave, diziam. Em dois dias e nada mudou exceto aquele superlativo que lhe soou uma hipérbole de loucura. Novo relatório. Gravíssimo! Menos de vinte e quatro horas e a ligação.

- Senhor, sinto muito...

Há três dias quem parou foi o mundo. Há três dias, quem lhe fugia pelas mãos, ligeiro, foi o tempo. Levou sua vida e os seis meses. Ficou nada. Sobrou-lhe apenas o relógio e seu barulho para assegurar que ainda permanecia vivo. Que apenas permanecia.

Agora, nada.

quarta-feira, outubro 20, 2010

cara, meu caro

Segunda- feira. Noite fria e barulhenta naquela São Paulo, vinte e três horas, quinze minutos, alguns segundos, pernas e gemidos.

- Não sei se é amor. Acho que isso não tem nome. Só sei que é bom...

Ela riu, virou o corpo, dormiu.

Ele, perplexo, levantou-se, vestiu a roupa e saiu.

Assim havia sido sua vida há tempos. Uma prostituta moderna. Ou melhor, rica. Amor tinha forma, medidas e, obviamente, preço (e ela, o seu). Sempre fora dona de suas vontades, exceto do seu corpo, posse de toda aquela metrópole. Mesmo quando a pele era mais rija e as carnes menos fartas, não se entregara a sentimentalismos convencionais ou sequer inclinara-se em conceitos pré fabricados. Pré moldados. Pré feitos. Prefeitos. Casas pré fabricadas. Concreto. Mutirão. Credo! Não gostava nem seus pés, imagina dos “prés”. Soava estranho. Démodé. Bem retrógrado e suburbano. E não lhe apetecia nada que a remetesse ao passado inglório da infância. Pobre. Precoce.

Cresceu puta, como a mãe, mas pela perspicácia adquirida do pai (estelionatário renomado), fugiu logo da rua. Tornou-se cara, meu caro. Somente as mais fartas contas bancárias lhe conheciam. Exclusiva de seus bens, deitou-se com o apartamento da Vila Nova Conceição, fez orgias com os vôos de primeira classe na Air France, gozou com o conversível de cifras milionárias e, com cada Gucci, Armani, Valentino, Gabbana e Lacroix das boutiques, praticou felação. Fez fama e fortuna. Jovem, dissimulada e sempre, chegaram-lhe, mesmo com os trinta e poucos, os calores e as decepções. Começou então a reposição hormonal e assim pôde manter a vagina úmida, pérvia, com o mesmo odor e furor lascivo teatral. Se havia algum prazer neste verossímil fingimento, sequer ela ousava dizer. Sua trajetória tão alheia a si chegou ao ponto de lhe roubar o ser e, agora, era apenas a outra.

Sem nome e com muito Chanel número cinco, sorvia a taça de Veuve Clicquot e lembrava da última visita a Paris enquanto alí embaixo lhe lambuzavam o sexo com saliva e nervosismo. Um arroubo de entusiasmo a assaltou da viagem. É que a língua penetrara mais profundo. Soou um ai. Então se contorceu e retesou as pernas. Ele ejaculou com a possibilidade dum orgasmo roubado. Era um cliente fácil. Dizia-se apaixonado, que tal? Ainda extasiado, disse-lhe algo que agora não se lembra bem do que se tratava, só recorda que achou pilhérico, e riu. E desmoronou.

Levantou ainda há pouco com ressaca, lavou o rosto, tomou o comprimido da juventude, esqueceu-se do mundo e voltou a viver.

sábado, setembro 25, 2010

amarelo

Outro dia estava quieto, parado, no meio da rua, sem intenções sombrias. Era ainda de tarde, sol forte (a luz aqui é doída, sabe). É chato esperar semáforos se abrirem. Hoje mais ainda que acordei ofendido. Pronto, verde. Pisei lento o asfalto fumegante e com o olhar vago, absorto, segui nobre, quando zás! passou uma menina em disparada, quase se esbarra em mim... Colérico, parei. E, imóvel, fixei o olhar na fitinha do seu cabelo que dançava com o aquele movimento. Era amarela! A fitinha era amarela! Dei uma risada. Nossa! Lembrei no instante de Ariela. “Quem nunca ouviu falar da Ariela? A menina da fitinha amarela. Sapeca, que corria no meio da fazenda, dava nó no rabo do porquinho, soltava papagaio...” Mamãe lia isto pra mim. Não lembro bem todos os detalhes da estória. Só sei que aquela fitinha amarela me assaltou tão impetuosamente, trazendo uma simplicidade tal de sentimento que, igualmente, tornei-me amarelo. Fiquei da cor da minha infância, da cor de minha mãe e do meu pequinês – o Ringo. E, puxado num novelo de lembranças, vem a figura de vovô. Ele e todas as suas tardes e tolices; sempre levava um picolé pro meu cachorrinho, fazia cafuné no bicho, só pra se lembrar de mim (que já morava noutra cidade). Ora, eu saio de casa e logo em seguida sou um cachorro! Gozado, sempre apago isto de mim.

Perdi a meninice cedo. Foi um parto a fórcipe, “a ferro”, como bem se diz por aí. Talvez por isso eu me esqueça de ser humano. De voltar em mim e ali desfrutar a mesma doçura de outrora. De estar quieto e feliz.

Mas nada me toma de efeito, nada. Tudo sempre recai com o peso insuportável da impossibilidade. Tudo lateja e arde como ferida aberta. Eu, que apenas quis dar um passeio pela cidade, agora estou aqui, pálido, ou melhor, amarelo, e sem saber o que fazer. Há tempos decidi ser só e não posso, e nem quero, que tomem de mim o tocar-dos-pés-no-chão. É fato. A experiência já deu provas: tudo que é sublime tem seu preço, e é caro. Tudo que é simples e leve voa. E não tenho asas. É esta agora a angústia deste poste no meio da rua que sou eu. E, apesar do emaranhado de fios, da eletricidade e das conversas, tudo apenas passa por mim. Apenas passa. Apenas deveria passar, mas aquela fitinha...

Abre o sinal, tocam a buzina. Atordoado, recuo. Viro. Sigo. E sumo.

quarta-feira, setembro 22, 2010

inexistir

Não acabe com minha poesia, não corra com o vermelho pulsante de minhas artérias já dilaceradas por teu amor pujante e assassino, não fuja de mim...
Se ando calado, é que sou vazio. Tombaram meu corpo no caminho e agora me batem a cara como um cadáver de olhos vis. Se me rompe o peito a angústia, é que não sou nada além de nós. Estou cansado. Cansado mesmo. Cansado de escrever, de pensar, de tentar trazer à tona o que me traz de incerto a existência. Não espero que eu volte a mim tão cedo. Não. É que, vagante espírito, sei que posso ser nunca e nada, apenas hiato, apenas distância e memória (ou esquecimento, se assim quiser). Sei que assim posso ser traços, palavras soltas, sussurros e onomatopéias. Assim posso alcançar o sublime inexistir. Assim posso ser só. E só. E pó.
Chega o vento.
- Ffffuuuuuuu!
E agora nada.

domingo, agosto 29, 2010

zzzzzzzz

-Doutor, eu tenho um tumor no seio? É muito grave?

-Minha senhora, é um câncer de mama (pausa) estágio dois bê.

-Ai meu Deus! O que quer dizer isso, doutor? Que eu vou morrer mais rápido? Fale logo!

Olhar fixo. Silêncio.

Não minha senhora, quem queria mesmo morrer agora era eu. Morrer é inerente a quem é vivo, ora! não sei porque o pavor de algo que nos mantém (ou pelo menos deveria) no prumo da vida. Para quem perde o respeito pela morte, como eu, ela não vem... Eu que sempre escrevi nas crônicas póstumas minhas declarações docemente pensadas, falando de uma vida cheia de amores incompreendidos que me levaram ao extermínio deste ser vagante de alma tísica, notívaga, trôpega e delirante; eu que sempre me atirei de prédios como um pássaro de asas arrancadas e cultivei o cinza dos olhos; que criei a dor, dei-lhe forma e fama; que abracei a noite fria como uma amante moribunda que arde a última chama por um beijo vagabundo, tal qual fora sua existência, suja; eu que tantas vezes maculei as mãos com o rútilo sangue cujo fluxo interrompi quando com a lâmina fria separei carnes para juntar vidas, agora rogo para que com feroz ímpeto me rompa em mil traços e sem linha reta a vida cheia de reentrâncias e subversões. E me faça em nada, apenas fugaz recordação.

-E então, doutor!?

-Não se a senhora quiser. Basta aceitar o tratamento...

- Mas, doutor, e se...

Se, se, se, se.

Zzzzzzzzzzzzzz. É ela.

quarta-feira, abril 07, 2010

eu, menino

No tempo de mim bem menino, na pacata cidade de meus antigos, deram-me uma missão: eu tinha de ser feliz! Claro que para quem corre pelas ruas, sítios e currais, esconde-se debaixo da ponte do rio, empina papagaio por tardes a fio e se afugenta das ralhadas e safanões da mamãe entre as barras do vestido da velhinha que mora ao lado, não haveria de ser tão difícil cumpri-la. O tempo é apenas um coadjuvante no processo do crescer, sabe-se que ele está ali sempre, aliás o corpo diz todos os dias isto, mas ninguém lhe dá seu real poder, afinal, será que na infância ele tem algum?

Não sei exatamente quando me tornei adulto, não passei por um processo gradativo, experimentando irresponsabilidades e prazeres inerentes a adolescência, não! passei direto. De menino, já fui homem. É esquisito não poder correr qual dantes, mas não me conformo fácil, sempre fui audaz, quando olho o céu noturno cheio de estrelas, fujo da rispidez dos percalços diários e me deleito infinitamente por acordar no quintal de minha casa: ali, deitado no chão mesmo, imaginando quão grande podia ser o universo... Hoje por mais do conhecimento adquirido, tudo me parece ser menor e, ainda que me esforce, nem todos os dias recordo daquela felicidade a qual estaria eu fadado a ter.

Hoje quem brinca com o tempo é aquela mesma velhinha de outrora. É certo que ela não pôde abster-se das marcas físicas de quase um século, mas foi o preço que aceitou pagar por ter a mente livre. Tão livre, que dada a ousadias, viajava milhares de quilômetros apenas com o desejo do instante, visitava amigos e parentes com a mesma rapidez que durava o seu sorriso, puro, ingênuo, afinal, ela, que também teve a infância tolhida pela precoce perda da mãe, guardara todo o seu estoque de gracejos por uma vida inteira, agora, nada mais justo que usufruí-los ininterruptamente.

Ela, que não toca o chão e voa com a facilidade de um curió, as vezes cansa de fugir de sua sina e pousa perto de nós e, ainda assim, nunca perde a ternura de cada gesto e de cada olhar incompreendido. Agora, longe do calor dos seus abraços que os anos tornaram débeis, mas sempre dispostos e afáveis, tenho medo do mundo, medo de esquecer sua voz frágil e embargada dizendo que me ama mais do que a minha compreensão, mais do que eu próprio, e me outorgando a sentença: “- Que Deus te faça feliz!”

Saudades, vovozinha.

sexta-feira, novembro 20, 2009

longe

Hoje provei do desespero. Dizem que tem um gosto amargo e seco, discordo, ele só dói. Não tem gosto de nada até mesmo porque ele traz consigo a imensidão do nada. Um hiato de silêncio que grita (e já ouvi dizer que quando o grito supera o poder da palavra é que o homem perdeu a razão). Pois assim estou.

Não é o mesmo sentimentalismo barato, o furor frívole dos amores incertos ou , quem sabe, de todas as incertezas mundanas, não! é diferente, é mais pesado, metastático: um câncer. Como se todas as vísceras se entranhassem umas nas outras e perdessem toda a coordenação orgânica que permite o cumprimento do compasso tênue da vida.

É iminência de morte. Acho que chamam isso de saudade.

domingo, agosto 30, 2009

a grandeza do vazio

Ela não cabia em lugar algum.
Era opaca, bege, sem graça, sem vida
mesmo que sempre estivesse ali
não se punha em qualquer espaço vazio.
Não tinha forma definida,
às vezes grande,
às vezes vil,
às vezes sete
ou mesmo mil,
não se continha sequer
naquele canto escondido, frio.

Sua existência quieta, sutil,
inundava todos os espaços
num segundo fugia tudo que era claro
E minha paz, onde? Sumiu.


Não era questão de escolha
trazia de herança,
muitas almas,
gerações passadas.
Nascida de muitos partos:
os antigos, dolorosos
os atuais, cesáreas.
Abismo humano
 instante insano
a mulher se iguala
brutos animais
bichos no cio
surge das entranhas
a humanidade.

Se me entrego aos seus braços
não sou digno dos brios,
mesmo forte, caudaloso rio
destas águas devo ser fugidio.
Seu nome jamais atrevo
não por medo,
é que se pronuncio seu nome
seu significado insone,
faz meu corpo jovem em senil.

domingo, fevereiro 08, 2009

vai

Para quem é livre e, simplesmente, parte...

Depois de cantar tua liberdade, estou aqui cantando tua despedida. Não por acaso demorei em me expor aqui. É que ando provando muita amargura da vida, tenho tomado o cálice do fel de meus inimigos então cansei e decidi também ficar um pouco egoísta. - Não! Uma trégua ao menos! E sumi. Mas agora que o abismo se abre, dois corpos unidos pelo tempo irremediavelmente se separam pelo espaço. E por isto, somente por isto, estou aqui novamente.

Não tento encontrar palavras certas agora porque elas não prestam e são promíscuas; falam de amores e descrevem a loucura. Elas pouco se importam com quem as usa: elas chegam, fazem a explosão bombástica e depois somem. E eu que sofro aqui, solitário, sem elas. Melhor calar. É que o que sinto não sei dizer assim fácil e mesmo se soubesse, nunca o diria, é só meu, é meu termômetro, afere a intensidade de vida que ainda resta em mim. Por isso sou silêncio.

Mas não devo e nem vou te deixar ir tão fácil assim, mesmo que já tenhas cortado os cabelos e o medo que te prendessem tenha fenecido, ouso te dizer que ainda tens nos olhos o mesmo brilho e a mesma paixão de sempre e por isso, em parte, continuas pertencendo a mim. Ainda que agora seja em definitivo (e creio nisto), que a distancia seja infinda e que demore eu sentir de novo a ternura do teu abraço e o teu amor de irmão, eu permanecerei sempre bem aqui, quieto, parado, e em mim... Talvez um dia, quando o teu desejo de morar a beira da praia, de aprender a surfar e de deitar na areia no final da tarde volte avassaladoramente à tona, eu sairei de mim e estarei em ti. Mas agora não posso. E mesmo morrendo um pouco, hoje tenho coragem de te dizer vai...

sexta-feira, janeiro 02, 2009

crença

Eu acredito em você...
Palavras correm soltas
Esmagam esperanças
Matam
Mas acredito em você...
até o final

domingo, dezembro 28, 2008

ainda sou teu

Tombei. Procurei na Torre de Babel dos são um valente e ousado aventureiro, preguei meus olhos no primeiro degrau. Entre psicotrópicos e narcóticos tentei desobstruir minhas retinas e lá estava eu, cego. Não adiantou colírios alucinógenos, a realidade sempre vira a tona. Não que tenha sido a primeira vez que isto me ocorrera, já havia morrido outras vezes sim, aliás desde quando me descobri adulto e adúltero de meus sonhos que as sombras nefastas da solidão me perseguem. Na bagunça do meu coração eu perdi o leme da razão, o senso do correto e lá estava eu no chão mais uma vez. É que nunca me ensinaram a amar, nunca soube bem o que é isto; mas se amar, como cantam poetas e boêmios, é sofrer avassaladoramente a ausência de outrem, então amo desesperadamente. Pena que descobri tão tarde...

E na fraqueza dos meus dedos e na fragilidade do meu coração, pus meu pescoço à mercê do algoz carrasco. Seu cutelo já macula de sangue minha pele. Mas se é indignidade desnudar a alma, assumir a culpa e se entregar ao castigo, sou o mais indigno de todos os homens. Não aprendi a mentir ainda, não me deram tal capacidade. Não que eu ache que a dissimulação seja o melhor caminho para se manter sempre intacto, mas dizem que se sofre menos. E não quero crer...

Mas se mesmo na indignidade de minha alma, na cegueira de meus olhos e no vazio da solidão consigo preencher meu ser de felicidade quando vejo o brilho dos teus olhos e sinto a ternura de tua mão, e se mesmo embaraçado por minarem de mim lágrimas de tão pulsante e cálido desejo de te ter ao meu lado, ainda luto para devotar tal sentimento a ti, é porque ainda sou teu.

quinta-feira, julho 03, 2008

Simples

Para quem é simples

Eu tenho tanta coisa pra falar, contudo minhas palavras são mar, apesar de profundas, por ser água, também afogam. Então calo. A ternura do teu olhar pequeno, um colosso avassalador no peito; e por andar apaixonado, temo perder a compostura, não conter em mim, e mais uma vez calo. E poderia até mesmo escrever sobre teu beijo, mas como descrevê-lo seria transcender todo o vernáculo e mesmo assim chegar apenas no incompleto saber, então eu paro.

Tenho andado mais leve que o habitual, não que minha dieta tenha feito algum efeito, a alma é que voa mais alto e carrega consigo o resto que sobra de mim. Talvez assim eu tenha estado aqui e longe, em mim e em ti. Fecho os olhos e possuo o mundo inteiro, nele encontro o calor de tua pele, a suavidade da tua mão, a tua língua; adormeço todos os dias assim; teu abraço, meu cobertor.

E como não se pode compreender a intensidade das sensações quando a cronologia dos fatos é tão recente, descarto os ponteiros, eles não têm me trazido muita felicidade; tu, sim. Imagino muitas descobertas além, mas me contento com o agora. É que o simples apenas se vive e pronto.

quinta-feira, maio 15, 2008

ele vai morrer

Ele era feio, pequeno e indefeso. Seu destino já havia sido traçado. Ele vai morrer. Não de morte natural, daquelas que diariamente guardamos a expectativa silenciosa de sua chegada. Seria premeditado, ritual macabro quem sabe, cruel ou não, mas lhe tirariam a vida.

Era Muchipiran Kappó, era indiozinho, era portador de paralisia cerebral. Muchi, como carinhosamente era chamado pela cunhã, sua mãe, foi parido no meio do mato, depois de três dias de dores, nasceu ao contrário, como precocemente tudo na sua vida já era, primeiro vieram as nádegas, depois o resto. E Muchi se tremia mais que os outros curumins de colo, por isso o trouxeram para a capital. Puseram Muchi num prédio alto, num quarto com mais uma criança e lá prenderam os pais abnegados. Tanto zelo se ouvia pelos corredores, mãe de Muchi dizia pra todos que passavam: “Não quer levar Muchi? Leva! Leva!”. E Muchi permanecia com seus espamos e ladeado de promessas. “Tenho quatro filhos, Muchi diferente, Muchi vai morrer”, dizia o pai.

Passaram dias, semanas, infundiram líquidos, drogas, mas nenhum elixir vital que trouxesse Muchi para longe de seu triste fim. Médicos, enfermeiros, estagiários, todos postergavam alta hospitalar de Muchi, mesmo que nada mais pudesse ser feito por ele e mesmo sabendo que ao voltar a sua aldeia, não importasse quando, seria enterrado vivo ou deixado no meio do mato sozinho.

“É cultural, minha filha, mande Muchi cumprir seu destino”. Disse a chefe da pediatria para a médica assistente. Foi a sentença final de Muchi. Foi uma manhã clara. A médica ainda deu as orientações sobre a medicação que deveria ser administrada em casa. Foi ouvida com bastante atenção. E levaram Muchi...

quarta-feira, novembro 07, 2007

ele o odiava

Ele o odiava. É que não conseguia perdoar facilmente sequer seus erros... tampouco os alheios. Há dias sentia-se atormentado com a idéia da traição, há dias habitava em si uma fúria maior que a habitual. Não que já não tivesse qualquer dúvida, é que simplesmente não era dado a intuições, a sensações inexplicáveis, coisas de gente de pouco racional. Sentimentos eram para si apenas a expressão corpórea de demandas cerebrais. Amar era unir rotinas, hábitos, inclinações. A desconstrução desta forma geométrica bem acabada na qual se pautara suas relações e seus relacionamentos era a manifestação de sua ira. Tal como agora. Amar e odiar, tão próximos, que somente naquela noite, com aqueles olhos marejados, o mar ao lado, o vento no rosto e o sabor de sua língua, descobrira que de fato o odiava.

Foi um encontro casual. Apenas troca de olhares. Um, verde, outro, sombrio. Palavras, dispensáveis. Logo roçaram os narizes e trocaram saliva e secreções. E então estavam juntos pela eternidade de suas vontades. Suas vozes foram ouvidas uma semana depois, não que fosse isto uma arbitrariedade para permanecerem unidos, foi questão de curiosidade apenas, afinal suas mãos já falavam por si e seus dedos já aprendiam a anatomia do outro enquanto os olhos se perdiam em gozos, estrelas e silêncio.

Então a notícia. Veio por telefone, por uma mensagem e uma bomba-relógio. Explodira fraco. Morre-se pouco por estes tempos, não há tempo suficiente para mortes verdadeiras. Mas digamos que ele tenha morrido um pouquinho. Tão frio e sombrio quanto seus olhos, depois, pegara a prova ilibada do adultério, entregou ao impostor e lhe deu a sentença da mudez, da surdez e da insensatez. Foi-se... Três semanas depois, sem qualquer razão, foram a praia. Era noite, ventava muito, beijaram-se, nunca mais se viram.

terça-feira, julho 31, 2007

você me faz sofrer

Você me faz sofrer... Quando me invade com o seu olhar sereno e me despe no momento que seu brilho me ofusca a razão, você me faz sofrer. Não que haja pouca verdade em seu olhar, é que já não consigo estar longe dele. Quando em seus braços me refugio e o calor do seu corpo arde em meu peito, eu calo. É que meus dias fizeram minha mente clara e meu corpo tão pálido e frio que tremo em pensar me afastar de sua chama, então você me faz sofrer. E os segundos cruéis que passam no seu relógio tomam a velocidade supersônica de minha agonia e me roubam de você, levam de mim a possibilidade de um amanhã e mesmo que sempre soubesse que tudo não poderia mais que efêmero ser, ainda assim, você me faz sofrer.

É que ando desacostumado com certos sentimentos, certas sensações. Sinto seu cheiro e imagino parar o tempo. Já sequer consigo descrever a avalanche de emoção que me faz o simples toque de suas mãos, o coração acelera e a mente pára. Sou presa fácil. Tudo que construí de fortaleza pelos tempos infindos de guerra com meu passado explode como um vulcão no instante que sinto seu beijo, o roçar de sua língua, e me traz à tona tudo de mais cálido e vermelho que meu corpo se negava a sentir por séculos. E me faz alto, vivo e pulsátil. Tão dono de mim, tão livre, que sinto como um barco que se entrega à bravura impiedosa das ondas do mar que ao mesmo tempo alimenta e mata, resfria e afoga, e vicia.

E quando arranca de mim o delírio maior, meus músculos rijos, a carne fogo, tudo de nobre perde sentido. Não há razão para nós. E mesmo que os corpos quentes estejam plenos de prazeres mundanos, ainda lá encontro o seu olhar, seu abraço, seu cheiro, seu beijo. E, por fim, você me faz sofrer. E me faz feliz.

domingo, julho 15, 2007

amores e aspirinas

Certo dia, ouvi de ti que ma amava. Acolhi as palavras, não cheio de felicidade ou excitação, mas as guardei com calma, como quem recebe um livro bonito e o põe numa prateleira esperando sua hora de ser saboreado. Assim fiz com o seu amor. O fato é que não costumo acreditar no amor que corre suave pela boca. Amor dá trabalho, amor cansa. Ele só é real depois que sofre todas as iniqüidades do mundo, todas as atrocidades das pessoas, todo o horror dos contratempos. Ele só presta bem velho, bem barbudo e sôfrego, quase morto. Não digo que sejam irreais os sentimentos que geralmente as pessoas nutrem umas pelas outras e que vêm e vão ao sabor dos desejos, eles só não deveriam ser chamados de amor. Este movimento ondulatório carreado de secreções e outras camadas de gestos e intenções nada puros é apenas tesão. E não condeno que as pessoas pautem suas vidas pelo tesão. Ao contrário, antes ter ouvido que me tinha tesão, o mais carnal e lascivo que pudesse existir e não vir a confundir com algo que temo ser tão distante de mim.

Preferir o corpo à alma. Ele sim traz calor e geme e goza. Não inventar o sublime. Alma, amar, ao mar, tudo isso é pra quem tem tempo. Eu não. Melhor uma rapidinha. Neste caso a cronologia é relativa. A transa não está longe do sarro, do namoro e até mesmo do casamento. Todos são rapidinhas. A todos se atribuem a mesma imoralidade crua e a indiferença alheia. Neles o amor não dura além do sexo rijo, das cavidades úmidas e do roçar das pernas. É hedônico e mundano.

Mesmo assim, apesar da grossura de minhas palavras, guardei o seu amor. Ele ainda está lá, quieto e empoeirado. Talvez um dia ele envelheça como um bom vinho. Enquanto isso embriago com o álcool barato. A ressaca, duas aspirinas.

segunda-feira, novembro 06, 2006

o dia que os anjos nascem

Ele decidiu acordar mais cedo. Não que houvesse alguma obrigação a ser cumprida. Decidiu apenas ver o sol nascer e assim fez. Sempre fora assim, decidia ao acaso seus caminhos e os percorria. Não acertava algumas vezes, mas jamais negava o desejo do coração. Era supersticioso. E apesar de todos os sinais apontarem mais uma manhã trivial, sentira que aquele seria o seu dia, como se sua vida fosse todo aquele instante e todos os gestos, por mínimos que seus músculos fizessem, tomariam explosivamente a vastidão do infinito, marcando a sua existência tão fugaz e efêmera até então. Talvez pudesse sentir um quê superioridade em seu devaneio. Mas na verdade sabia que apenas amava, amava tanto que desejava seu corpo unir ao mundo, seus recônditos, sua lama e seu esplendor, sem escrúpulos, sem medo.

Era só. Fisicamente era. Nenhuma paixão carnal relevante, nenhuma semente ou herança, nada. Tristeza não combina com solidão. Não para ele. Feliz é ser livre e isto ele o era. Tão livre que era dado a risos em velórios, mas não porque era sádico, via apenas as coisas diferentes. Por ter as pupilas coloridas quiçá pudesse descrever todas as cores jamais contempladas que por certo os raios inatos do sol desenhariam no céu aquela manhã.

O breu do horizonte já se tornava tênue. Não demoraria muito o momento que tanto desejava. A aurora pouco tardava a surgir naquela cidade equatorial. Tudo era muito dinâmico por lá e se qualquer um parasse um pouco e suavizasse suas ondas elétricas mentais, até o movimento de rotação da terra seus pés poderiam sentir. Então veio a luminosidade policrômica da manhã. Chegava a ser grossa e pesada. A brisa marítima acompanhava a velocidade da intensidade do brilho do sol que crescia a medida que este invadia toda a cúpula celeste. A sacada já não era suficiente...

E quando suas retinas cegaram com a atômica expansão da luz, a brisa fez-se tufão e os braços do rapaz eram asas. Um anjo pálido, taquicárdico. Pulou do décimo quinto andar. Morreu de traumatismo craniano.

sexta-feira, setembro 08, 2006

holocausto

Eu tenho tanta pena de morrer, de deixar tanta coisa... Outro dia uma tal de espírita veio me dizer que era bobagem pensar assim, que lá do outro lado existem coisas melhores. Mas não pra comer. Eu aposto! Ninguém come lá. Onde já se viu dizer que alma come? Eu acho que é por isso que tem tanta alma penada pelo mundo afora, todas com fome, coitadas... Eu me lembro dos tempos de menina que mamãe fazia uns cozidos tão bons, papai trazia caças pra fazer paçoca e assados. Mas depois de velho ninguém mais se governa. Nem mesmo o que enfio goela abaixo eu determino. Um batalhão a me apontar um monte de armas a começar pelo meu médico da pressão. Ele não come nada insosso. E fica jogando piadinhas dizendo que eu sempre ando muito zangada. Se eu comesse, ah, até que seria mais alegre. Minha filha, a discípula do holocausto. Nunca vi tanta tortura. Todos comem diferente de mim, aliás eu sequer como, eu engulo apenas. Nada de paladar, nada de satisfação. Sexo sem prazer. Antes de minhas carnes caírem eu até teria um consolo, mas agora, velha, além de tudo viúva... Melhor nem pensar nestas coisas, é pecado. E dizem que minhas taxas aumentam, só minha paciência que não. E reclamam “faça exercícios”. Trabalhei a vida toda cuidando de menino atentado e lavando roupa de marido. Eu mereço descanso! Nem isso, nem isso... Fazer que eu caminhe feito idiota pela praça da cidade. Acho que fazem de mal, só pra eu ver o sorveteiro, o pipoqueiro e a mulher do churrasquinho... Eu já nem fico tão aborrecida, eu como escondida depois e pronto. Eles descobrem tudo, eu sei, mas aí ninguém vai me tirar a comida fora mesmo. E nem adianta ralhar, eu sou surda. Uma das vantagens da velhice: a surdez oportuna. Tratei de ficar surda logo, é bom, ajuda. Só não aceito que digam que sou broca. Sonsa, talvez. Sempre gostei da Capitu, seus olhos dissimulados. Os meus, iguais. E minhas netas nunca entenderam como ser. Por isso estão todas encalhadas. Na idade delas eu tinha até anel de compromisso e as minhas carnes eram fartas, não era mirrada. Elas não comem sarapatéu todo final de semana como eu fazia. Nenhum viço... E ainda chamam de moda. Dizem que os rapazes gostam assim. Mentira, homem não pensa além do que está entre as pernas. Até isso eu já compreendia e estas tontas ficam se matando por uma coisa vã. Vai entender essas meninas. Melhor mesmo ficar quieta com meus comprimidos. Um dia aprendo. Um dia... Espero que não demorem para o almoço...

a viagem sem frito

E lá vinha a velha com seus peitos enormes. Duas melancias. Não sei como aquela pobre criatura conseguia forças pra ainda arrastar o corpo com aquelas duas montanhas adiante. Era descomunal. Tentava de todas as formas mudar o foco de minha atenção, mas era maior que minhas possibilidades. Deus, como eram grandes...

- Bom dia cumpade.

Ela insiste em me chamar de compadre. Que mania! Os filhos dela são todos mais velhos que eu... Costume do interior. Vá entender.

- Bom dia comadre, como anda?
- To indo como Deus quer, né?

Deus não haveria de estar muito contente com ela. Afinal, que sina, que sina... Quinze filhos, três mortos, um marido alcoólatra, e ainda aqueles dois despropósitos da natureza de quase cinco quilos... Ela há de ser recompensada noutro plano.

- Passei na frente de sua casinha, a senhora tá reformando. Gostei de ver...
- É cumpade, sabe como é, eu recebi um dinheirinho da morte do meu fio... Um tal seguro. Aí comecei a casa, tem duas salas, dois quartos, uma cozinha, uma salinha pros meus santos... Mas tá faltando um bocado coisa, sabe?

É sempre assim, eu pago pela minha boca... Agora tenho certeza que ela vai pedir algo. Diaxo. Mas desta eu me livro já!

- Pois é, comadre. Mas a gente vai fazendo as coisas aos pouquinhos. Devagar que a gente consegue, com a graça de Deus.

Ufa... Com a graça do teu Deus, mulher. Valei-me de ter um Deus que permita que além de sofrer todas as atrocidades do mundo ainda ter uns peitos daquela extensão? Acho que estou ficando obcecado... E o pior! Ofereceram a ela uma cirurgia plástica, mas ela não quis. Vê se pode? Quanto mais eu penso, menos entendo a cabeça desse povo. Eu hein...

- Mas comadre, a senhora tá abatida... Os olhos assustados. E esta perna?
- Ah, cumpade Zé eu nem lhe conto...

Melhor mesmo não contar. Argh! Detesto ser chamado de Zé. Mas tudo bem, um risinho amarelo sempre disfarça. Fico até com vergonha de chamar atenção frente tamanha tanta humildade daqueles olhos. Um final de novela seria menos comovente. Está bem, está bem, pode chamar de Zé sim. Vá, continua...

- Eu furei meu pé num prego, sabe... Deu uma tal de isi... isi... isipela, né isso?
- É mesmo comadre. Mas a senhora procurou médico?
- Tomei uns bióticos. Umas piulas... Tô ficando mió. Mas eu cheguei a pensar que tava pertinho d’eu fazer a viagem sem frito...

Viagem sem o quê? Estes caboclos têm umas expressões... Deveria ter dicionário. Frito até ainda vai, eu bem sei o que é, mas viajar sem frito... Af, melhor deixar quieto.

- Ah, ta certo comadre, compreendo. Um abraço pra senhora. Já vou.
- Sim cumpade, tenho tanta vontade do sinhô me dá um foto seu. Eu rezo tanto pro sinhô merecer tudo de bom, cumpade Zé. Um foto linda. Me dá?
- Eu vou providenciar, senhora. Prometo. Até logo.
- Inté siô.

Esperei um pouco antes de seguir caminho. Fiquei olhando... E lá ia a velha, manca, redimida dos pecados que por certo eram ínfimos ante tanto sofrimento talhado em seu rosto. Nunca mais vi a comadre. Sumi. Nunca mandei retrato, nem coisa alguma. Eu que pensava que ela iria me pedir mais. Pediu tão pouco e mesmo assim eu não retribuí. Ela que merecia ser feliz...
Tempos depois, voltando de férias, disseram que ela tinha feito a viagem sem frito. Compreendi tudo então. Comprei algumas flores e fui ao seu encontro.

fim dum velho que sempre andava pela praça no fim de tarde

Ele era feio, mas não era qualquer coisa medonha que pudesse ser comparado ao esquartejamento duma vaca, era pior. Era pior. Por isso morreu... Morto ninguém mais poderia ter sua feiúra motivo de escárnio. Morto ninguém saberia, mesmo que em vida ninguém realmente soubesse dele, agora nota-lo seria no mínimo improvável. Melhor assim. Durma em paz...

domingo, junho 25, 2006

o riso e suas artimanhas

Feliz de quem me ama. Só amo um; e rio para muitos.

Meu riso é tão grande quanto o amor dos outros. Amo para sofrer, mas nunca deixo de rir. E me amam. Eu, nem sempre. Quando a tristeza do outro rasga o peito, tenho sempre o amor de um cultivado pelo meu riso. A solidão me apavora. O remédio: rir.

Deixar de amar dói. Demora. No processo sempre me perco na ilusão da volta e pronto, estou no ponto inicial. Mas quando tudo se perde na imensidão do tempo e as coisas do passado e suas repercussões já não me fazem correr para um colo estranho que me espante o ser sozinho, questiono as lágrimas que em minha face correram. E o que preenchia meu vazio de sempre de fato é bem menor que os grãos d’areia das dunas áridas da solidão.

O tempo é cruel. Traz consigo toda a força do esquecimento e a avalanche da indiferença. É insidioso. E mata. Um Davi que com pedras e dentes dilacera o corpo do gigante até o instante que não há uma gota de sangue a tingir as gengivas mortais do pequeno criminoso. E perdemos os créditos das experiências. Bobagem pensar que o erro de amar jamais é repetido. Erro sempre. Errar é tentador. Seguir adiante sem pequenos tropeços é complicado. E nesta perspectiva de erros que o passado e o tempo constroem seus castelos para os quais fugimos quando a tormenta dos dias nos faz incapazes de achar saídas. E é também neste erro que tudo de mais intenso nos invade o corpo, as entranhas e nos faz vivos.

Viver num limiar de glória e abismos é o que busco. Sempre em risco, mas assim tenho o gozo pleno das coisas, dos dias, das pessoas. Sugo a energia vital de tudo que me cerca e me faço sempre jovem, capaz de admirar o meu entorno com olhos pouco dissimulados e cheios de estranhamento. No limite de mim, do mundo. A velocidade supersônica de minhas pernas e de tudo que corre pelas minhas veias me fazem ser invisível e é certo que voar fica bem mais fácil assim. Mas no momento que o chão foge de mim levando a possibilidade dos meus amores, amputam-se meus membros e minha mente. Desacelero. Paro. Então rio. E o tempo passa.

domingo, junho 11, 2006

sobre o tempo e as pessoas

Não confundir a existência com o sonho. Tornar tudo relativo. Outra noite dessas, sentado num jardim, tinha a lua bem grande clara e o mar fazendo um barulho singelo, calmo; nem ao mesmo ventava. Uma pintura real. Não estava sozinho. As conversas pareciam nem fazer falta, realmente não faziam! Nossas presenças eram diminutas ante a grandeza da natureza. Engraçado como este fato da constatação de nossa pequenez só se dá quando crescemos, enxergamos nossas limitações e nossos obstáculos, que se tornam bem mais evidentes. Mesmo quando estamos rodeados de vida, de vida humana mesmo, estamos sós. Existência egoísta. A essência humana é egoísta. Mesmo aqueles que se propõem em gestos caridosos e desinteressados buscam uma espécie de indulto à salvação, mesmo que inconscientemente. Melhor mesmo era quando se tinha a fantasia e tudo se misturava à realidade dos dias. Não sei exatamente definir quando tudo isto se perde e passamos a ser maldosos e escrupulosos com nossos devaneios. Não sei quando nos tornamos tristes.

Então, zás, num segundo, vejo tudo tão imenso, excitante e aterrorizante com meus olhos de criança. As brincadeiras, as malcriações, as impetuosas atitudes impensadas de quem apenas sonha e vive ao mesmo tempo. Gozado como às vezes desvencilhamos o passado de nossos dias e esquecemos que ainda somos aquilo que éramos. Esquecemos que ainda podemos ter os dias coloridos e mágicos. Correr de braços abertos sem medo de olhares alheios, abraçar o amigo sem a maldade hipócrita de nossos dias, ter um amor inocente, amar de longe, andar de mãos dadas, tomar um sorvete na esquina e fazer dos gestos mais simples o verdadeiro sentido da vida. Fico triste ao ver pessoas mesquinhas que não conseguem ao menos rir de seus erros, de suas falhas. Não conseguem confiar inocentemente nem tampouco dar importância para quem está do lado. A verdade é que somos criados na perspectiva da solidão. Nunca fale com estranhos! E eles esquecem que as pessoas estranhas podem ser legais também. Chegamos no instante em que tudo é estranho e deixamos então de experimentar, de arriscar, de transpor e superar nossos limites. Daí então somos adultos. Adúlteros. Traímos nossos mais puros desejos, nossos sentimentos.

Bom mesmo era quando fechávamos os olhos bem apertados e fazíamos um pedido ao cair uma estrela do céu. Quase nunca se realizava, mas nunca perdíamos a esperança. Pedíamos sempre. E esta ausência do passado não se pode tornar relativa. Uns chamam de saudosismo, eu chamo de felicidade.

quinta-feira, junho 08, 2006

queria ser poeta...

Para quem é eterno.

Queria ser poeta. Sentir as coisas somente no papel. Fugir de minhas mãos os medos. Um canal somente. Absorveria as bondades (e as maldades) do mundo, sugando pelos meus lábios as ânsias, os desejos e, bem longe do meu coração, levaria todos os sentimentos, puros ou não, verdadeiros ou não, até correrem de meus dedos, tomarem as folhas, os olhos, as pessoas, o mundo. Queria ser passional em meus livros e apenas neles permanecer a paixão, quente, vulcânica. Assim, ao fechar a capa fria, tudo findaria. Seria sempre novo, talvez inatingível, estaria inteiro tal como nasci. Profetizar o amor e nunca de fato amar. Amar por vezes dói. Melhor evitar. Cantaria um amor bonito, simples, ou tentaria fazer do amor uma coisa simples, fato que não procede. Mas seria um papel, então pode. Não queria ser bonito nem feio, queria apenas ser um nome. Não importaria mesmo como eu de fato parecesse. Minhas letras sim, estas eu as queria alvas, claras, firmes, pulsáteis, eu inteiro, nu e puro.

Queria ser poeta. Capaz de abrir os braços, sentir o vento em meu corpo e nesta sensação descrever o paraíso. Liberdade seria pouco. Estar sempre além, acima de tudo, comendo nuvens, beijando o mar, enfrentando a grandeza da escuridão feito vaga-lume. Sensibilizar e nunca ser sensível. Um ator nada autobiográfico. Minha vida de fato não seria tão alegórica e intensa como meu verbo, nem tampouco saberia cantar a alegria com minha tristeza. Poemas, uma máscara bastante conveniente. Um esconderijo bonito. Uma fuga nobre. Seria eu.

Ser rei, construir castelos apesar de minha ruína. Saborear todos os prazeres e nunca perder o rumo, como de fato perco, como de fato perdi. E quando a dor que ora invade o meu peito tomasse vida e rompesse num grito ligeiro, um desatino tiro certeiro estraçalharia o ardor e o desejo. Com sangue afogaria meus restos inteiros. No fim de tudo, porém, quando o mal nefasto morto estivesse, meus olhos brilhariam, não com lágrimas que neste instante me acolhem no aconchego desesperado da solidão. Ao invés disto, seriam lampejos ofuscantes da retina que mira o tempo e na sua infinitude encerra meus versos em poeira que o vento leva, toma espaços, impregna a alma e deixa apenas saudade.

terça-feira, junho 06, 2006

ele, eterno

Eu guardo muita mágoa em mim, dizia. Ser triste é questão de responsabilidade. Ninguém que seja alheio ao mundo e a si próprio consegue alcançar a tristeza. No máximo, a medíocre passividade das coisas, das pessoas. 

Seus olhos traziam o peso de várias décadas de vida, mas, ao mesmo tempo, a leveza da face ainda pueril fazia dele uma esfinge. Às vezes, perdido em suas divagações, a fumaça de seu cigarro me toldava os olhos. Nada era claro. Nunca fora. Sequer para ele. As coisas não tinham sido fáceis até então. "Todo fardo é pesado e ninguém carrega mais do que pode". Puro clichê. Bordão de quem aceita submisso a vida, as atrocidades. Isso não era ele. Queria ser bem mais: mudar o mundo, quem sabe, ser um anarquista... Coisa de adolescente, de espírito desbravador, coisa de menino, da vida mesmo. Queria ser gênio e não queria conhecer a morte tão cedo (como imaginava acontecer com as mentes brilhantes). Queria ser exceção. Até ali, não sei dizer se ele queria voar ou dominar o mundo, mas decerto conhecê-lo por inteiro. Não era perfeito e nem queria ser. Pessoas devem ter defeitos, limitações, medos. O seu era ser passional. Não aceitava a ideia. Não aceita. Não quer. Paixão devora, afoga, mata. Isso não! Paixão prende e ser livre sempre foi sua sina.

Ele sequer notava, mas na verdade era cheio de paixão. Quando sonhava seu futuro e sorria a beira do mar, ele era paixão. Quando ouvia sua banda preferida e fazia amor comigo ao som da música mais bonita, ele era paixão. Quando saía pela madrugada, nas ruas desertas, sob a chuva escassa e beijava à luz do poste da pracinha, ele era pura paixão. Apenas não notara.

Mais um cigarro. A noite estava mais fria que o habitual. Ventava. Fechava os olhos e ninguém podia lhe tirar o prazer de sentir a brisa nos cabelos. Gostava deles compridos. Aliás, tudo que lhe tolhesse a possibilidade de fuga era tortura, até mesmo a cadeira dum salão de beleza. Melhor mantê-los compridos mesmo, argumentava. A calvície ao menos estaria distante. Não que fosse vaidoso, gostava apenas de como estava e de como era. Num instante, envelhecer lhe parecia apavorador: em sua mente, duas décadas passariam na velocidade de dois meses. Noutro, contrapunha tudo isto. Mais velho, poderia morar à beira do mar e certamente já saberia surfar, pensava. Ah, o mar, queria dormir e acordar com ele, namorar as ondas... Ficava excitado só de pensar. Seu rosto mudava. Aquilo enchia de felicidade qualquer um que estivesse perto. Era puro. Apesar das marcas do mundo, conseguia ter mente leve, ingênua. Crianças são assim. Elas vivem intensamente, são destemidas. Era igual. A diferença era a barba, a voz rouca, as mágoas. Mas nada era maior que o desejo de ser sempre intenso. Era fogo. Queria arder sempre. O resto que fosse fugaz. Ele, eterno.

sexta-feira, maio 26, 2006

anne

Detesto o povo desta cidade. Além de tudo, mentirosos. Vocês nem sabem, outro dia meu pai veio dizendo que lhe haviam falado que ando fumando. Fiquei atônita. Não acreditei. Nunca fumo. Nunca. Indignada, deu um último trago do seu cigarro e o lançou bem longe, impiedosamente, descontando toda a sua raiva. Soltava aos poucos pelas narinas a fumaça de suas impurezas mais profundas e as misturava à atmosfera densa daquela manhã de domingo.

Seus pés delicados, nus, massageados pela areia quente da praia e a brisa morna do oceano eram um convite ao delírio. Momento de exaltação. Superior. Traz mais uma bem gelada, seu garçom. Nada de pensamentos poéticos agora, interrompeu. Gostava mesmo era de ser mundana, sem suavidades de pensamentos, tudo deveria ser prático, bem mais fácil assim de administrar. E aí, vocês vão ao show? Continuava a conversa distraída com a prima e os amigos que há pouco haviam chegado. Um que sequer conhecia, mas que se já dividia a mesma cerveja, então já era amigo. Amigo é matéria de afinidade. Olhou, gostou, pronto, já é amigo. Muito simples. Nada melhor que um bar para fazer amigos, alegre ou triste sempre você encontra um por lá para dividir uma bebida e uma vida inteira.

O dia invadia a tarde, sol quase crepuscular, meio laranja e vermelho maculando o horizonte da baía. Nenhuma conversa fazia mais sentido. Apenas palavras soltas levadas pelo vento e perdida nos ouvidos. Se houvesse alguém que por acaso declamasse um Fernando Pessoa ou discorresse sobre uma receita de bolo, nada faria diferença. Nada realmente faz diferença quando apenas se deve estar. Estavam ali e pronto, é certo que um tanto invisíveis uns ao outros, mas a presença fixa dos olhares cruzados na mesa já cheia de garrafas e dos cacos de cada um era a certeza que eles permaneciam.

Os olhos minguavam qual a luminosidade do dia. Os dela mais que os de todos, devia ser sono, ou quem sabe a morte, ou talvez vontade de sumir. Sentia por vezes estes desejos. Conseguia em alguns momentos, muito raro porém. O fato é que já era hora de sair dali, mas como geralmente não consegue se desvencilhar das coisas tampouco de pessoas, levou tudo para sua casa, exceto os cacos, estes bastavam para um fim de domingo.

Sua casa, mais conversas, nada sem intenção, apenas faladas. Os corpos caem logo pelo chão da sala. Dormem. E se vê só. Maria! Não acredito que Maria já tenha saído... Andou pela casa procurando nada, pisava o chão somente com a vontade de ter o frio da superfície lisa sob seus pés. Ela de fato era sozinha. Mesmo com todos ali entorpecidos com o seu feitiço sonífero, continuava só e sabia disso. Melhor fugir. Parou de andar, voou ainda um pouco e desapareceu.

domingo, abril 30, 2006

sonhos... uma proletária

Todos os dias seguia o mesmo ritual. Acordava com humor trágico e o corpo quente com aquele cheiro bem peculiar de quem havia dormido por um bom tempo. Ainda permanecia ali com os olhos meio abertos, meio fechados, tomando fôlego para voltar novamente à vida. Sempre cochilava mais que podia, mas se não fizesse aquilo, parecia que não dormira a noite inteira. Mesmo com o andar das horas, nunca punha a pressa adiante de seus passos e tão logo se entregava ao seu diário processo de transfiguração. A água escorria-lhe as coxas correndo um rio pelas pernas e carreando todas as impurezas de sonhos maus que por certo haveria de ter tido. Sempre sonhava coisas ruins. Dizem que os sonhos são necessidades mal expressadas. Devia ser uma pessoa recalcada ou no mínimo tola. Sentava-se a frente de sua penteadeira e com cuidado arrumava as madeixas numa composição ortodoxa, comportada. Logo o pó viria cobrir seu rosto, moldando a máscara que diariamente compunha o semblante estático. O vermelho do seu batom era sangue puro. Matava os seus amores todos os dias, retirava-lhes o sangue e o guardava. Suas pernas delicadamente acariciadas por meias finas de seda logo ficavam tesas quando os pés se acomodavam no scarpin de salto bem longo e fino, sua arma predileta. Adorava matar e pisar suas vítimas com o salto agulha, cravejando sua ira na carne morta, espasmódica, de seus defuntos. Mas ela era recalcada. Então apenas sonhava.

Na doçura de seus gestos e na mansidão de seu olhar, trazia a ira de toda uma existência. Sua boca sedenta de almas exalava o perfume lúgubre das flores dos cemitérios. Seu corpo jazia a perdição. Apenas sonhava. Toda vestida de dama em seu tailler, saía de seus aposentos toda majestade. Descia as escadas da pensão, seu palácio, e logo a porta se abria para então a rua lhe absorver. Sumia.

Os fins de tarde daquela ilha eram extraordinariamente policromáticos. Nuanças de vermelho e azul fundiam no horizonte e cortavam a paisagem numa pintura fouvista. Logo ressurgia. O ranger da escadaria anunciava o seu regresso. Intacta. Nem parecia que um dia inteiro havia passado. Permanecia a mesma. Então retirava toda a sua fantasia, sua máscara e suas armas. Vomitava as vísceras de suas vítimas que nunca morriam. O corpo voltava a ser velho e cansado. E se entregava aos sonhos reais de morte que lhe traziam vida toda manhã.

sexta-feira, abril 14, 2006

ainda

De repente escuridão... Havia alguns dias que não andava lá bem dos humores, meio inapetente, apático e com uma preguiça maior que o normal. Por vezes no fim da tarde meu corpo ficava quente, mas logo a cama me envolvia num abraço e cedo esquecia das febres. Aliás, adoecimento é matéria de esquecimento, de pura negligência. Quem bem se lembra do corpo, da alma pouco sucumbe. Isto é tão verdade que, de todos os velhos que conheço, aqueles mais lúcidos foram os que morreram mais tardiamente, mas sempre morreram, ainda não vi um permanecer, ficar ali, mesmo latente, quieto, esperando a passagem dos tempos, sendo referência do passado das coisas e testemunha das grandiosidades d’agora. Por isso sou negligente mesmo. Pouco importa se meu fim é cedo ou tarde, agora ou se foi anteontem. Tudo tem fim. E no fim do dia seguinte a ira colérica tomou toda a extensão de minha pele, fê-la em brasa, olhos em tocha, boca em chamas. O homem negro de olhos negros e capa negra fechou então minhas pálpebras e me levou consigo. Fui.

Alguns dias depois, ou seria meses, não sei ao certo. O fato é que não estava ali há pouco tempo. Sentia apenas que voava. Olhares ao meu redor, muitos, nunca vi tantos, e se forem de anjos, todos mentem de suas belezas. Lá encima, bem acima deles, uma claridade exageradamente ofuscante indicava o caminho pelo qual estava sendo levado. Se morrer é ter que cegar a retina com aquela luz, prefiro então a penumbra de meus mortais dias, ou então a morte de lugar algum, aquela de apenas me desfazer e me espalhar pelo mundo e não ter memória, nem perspectivas de continuidade. Apenas a de estar nos lugares, como o pó que sempre permanece mesmo depois que tudo é limpo e que ninguém vê a primeira vista, mas está ali.

Quando a dor fez parte dos segundos que lentamente passavam, descobri que não morrera. Vi meu corpo cheio de pequenos tubos que invadiam minhas veias pelos quais soluções tatuavam na minha pele o caminho de meus vasos, trazendo a agonia, o sofrimento. Descobri que existe mesmo inferno, ainda que dantes nunca quisera acreditar. E ele fica aqui! Seria castigo de meu esquecimento? Seria então uma opção estar ali? Um grito rompeu o silêncio que violentava meus ouvidos, o rosto em lágrimas, sozinho. Dói ser só. Nem sequer poderia sair correndo com minhas mãos presas à cama, meus braços já cheios de hematomas, sinais da rebeldia inconsciente das convulsões. Não sou muito de me entregar. Não havia outro caminho. Calei meus pensamentos, meus impulsos e por fim minha boca.

Alguns anos depois descobri que pessoas também viviam ali, não presas como eu. Já devia ter desconfiado mesmo, afinal aqueles tubos nunca esvaziavam. Alguém sorrateiramente violava o santuário de meu sono e os trocava. E nunca dormira como ali, acho que era uma espécie de magia, de encantamento que havia naquela cama, nas paredes brancas sem cantos e na janela que não ia a lugar algum. Certo dia cheguei a olhar uma dessas pessoas. Era noite ou dia, não sei, afinal nada mudava, tudo era igual o tempo todo. Então não deixei a magia me envolver, fechei os olhos e fingi dormir, mas estava bem vivo, a espreita, como um leopardo ágil. Quando ouvi o giro da maçaneta, abri uma fresta entre as pálpebras e vi. Não eram humanos! Por isso nunca tinha ouvido sons de passos, afinal voando ninguém ouve o atrito do chão contra os pés. Desde então resolvi não querer entender mais nada, nem mesmo o porque das paredes sem cantos.

E eu aqui fui ficando só para poder ver a verdade das coisas. E fui envelhecendo sem nunca eu perceber. Nem dei conta que já havia feito a minha escolha de apenas ser o pó que permanece. Descubro-me um mar que rebenta tanto para nada e a memória é a única testemunha que prende por um fio o que ainda sei dizer. Ainda...

domingo, abril 09, 2006

um velho, uma bengala

Ele foi indo rua abaixo com sua bengala do lado e passo ébrico. Todos os dias o velho fazia o mesmo caminho e os mesmos olhares que o acompanhavam diziam “agora ele cai”. Para infelicidade de todos, nunca aconteceu. Na sua limitação, ele continuava, como quem se caminha sem destino e sem pressa de chegar a lugar qualquer, andava pela necessidade de se sentir vivo, mesmo que todo o peso do tempo o transfigurava num moribundo. E nesta luta constante contra as adversidades que eram pautados os dias daquele senhor de olhar manso, expressivo e de cabelo de algodão cru.

Não sei bem porque aquela figura me trazia tanta impaciência. A calmaria de seus gestos trazia a agonia ao peito. Queria trocar algumas palavras com ele, quem sabe um “oi, como vai”, mas será que isto se pergunta pra quem não sabe nem o que lhe espera ao dobrar a esquina? Sim, porque naquele avançar da idade, nada me espantaria se me dissessem que o velho da bengala tinha dobrado a esquina, tropeçado numa pedra e morrido de traumatismo craniano. Não sabia realmente o que dizer a ele, nem o que perguntar. O silencio que geralmente ajudava a aliviar as tensões da mente não funcionava com aquele velho. Acho que nem mesmo o pobre coitado sabia o mal que me fazia. Devia era morrer logo d’uma vez e me deixar quieto! Não queria mais ser obrigado a olhar o velho a passar pelas coisas e as coisas a passarem pelo velho, numa passividade recíproca e cansada.

Logo chegou o tempo de partir de minha cidade e buscar a vida noutras paragens. O dinamismo da capital me fez esquecer o velho e às vezes até de mim mesmo. O ritmo taquicárdico da rotina metropolitana era bem eu. Gostava daquilo, do desconhecido, uma sensação bem maluca de ser só no meio de milhares de pessoas juntas. Mas como tudo acontece comigo, isto cansava por vezes e lá eu voltava à cidadela calma e pacata que me gerou. Numa dessas visitas lembrei o velho e percebi que ele não descia mais aquela rua no fim de tarde como dantes. Senti um vazio, talvez saudades daqueles passos calejados e daquele olhar manso. Ninguém soube me dizer o que havia acontecido com ele, nem mesmo o seu nome sabiam para que eu pudesse talvez encontrar alguma lápide no cemitério e quem sabe acender uma vela. Nem mesmo se sabia se ele havia mesmo morrido. Ele simplesmente sumiu, tornou-se invisível, desintegrou-se no espaço.

Procurei saber onde ele morava. Não foi muito difícil. Uma velha casa perto do rio cercada de ripas aparadas com uma cancela de madeira na frente que abria o caminho por um jardim de hortências, rosas e cravos entremeados por capim e ervas daninhas. O som do rio batendo nas pedras se unia aos dos xexéus que faziam seus ninhos numa gameleira bem perto dali e embalavam a melodia daquele cenário melancólico. Segui um pouco mais e estava em frente da porta de madeira débil que pouca resistência fez quando forcei minha entrada. Os raios de sol atravessavam algumas telhas quebradas no teto e a penumbra envolvia a atmosfera da sala. No canto, uma cadeira preguiçosa e no mocho que estava adiante, um jornal de três anos atrás. O velho lia. Uma sensação de medo e calma juntos ao mesmo tempo me invadiu, mas fui além. Devagar, entrei por um pequeno corredor que ao fim levava a um pequeno quarto. Uma cortina de xita rasgada isolava aquele compartimento do resto da tapera e o deixava mais escuro que o restante dos cômodos. Os raios de sol que insistiam em iluminar o ambiente pelas frestas duma janela que ficava na parede do fundo daquele quadrado me convidavam para que eu os ajudassem a transpassar aquela barreira, então eu a abri.

Meus olhos contemplaram uma simplicidade tão ímpar. Fiquei parado um certo tempo até entender tudo aquilo. Na cama de palha coberta por um lençol que antes deveria ter sido branco, adormecia a velha bengala e na cômoda ao lado, uma lamparina velava papéis dispersos dispostos embaixo de uma caneta de tinta já seca. Peguei todos eles e os trouxe comigo. Saí do quarto e me achei na cozinha com um fogão de lenha com algumas cinzas que ainda descansavam no seu interior. A portinha dos fundos rangia com o vento que a insultava, passei por ela, saí e busquei o quintal. Dei algumas voltas, comi algumas cajás que haviam caído há pouco. E lá no fundo, debaixo duma laranjeira de sombra singela descansava uma cruz fincada no chão. Ele dormia ali. Na paz e na serenidade de seus dias quando em vida. Nem fiquei triste nem nada. A tranqüilidade de sua morte trouxe a paz à minha vida.

Em passos curtos e calmos agora eu subia a rua. Busquei minha casa, meu quarto e dormi. Fiquei em silencio por alguns dias, falava somente o necessário, não desperdiçava minhas forças com o supérfluo. Lembrei então os papéis que havia roubado do velhinho e lendo aquelas letras tremidas e incoordenadas vivi um século inteiro em poucos minutos. No fim de seus versos ele dizia bem assim “e fui feliz...”. Fechei os olhos e chorei.

segunda-feira, março 13, 2006

cantus a obitus

A música tocava uma tristeza tão grande e tão minha. Era noite e as luzes da cidade ofuscavam o brilho da lua tão lua naquela brisa fria e calma; e meus olhos a repousar sobre aquela paisagem da janela de meu imenso quarto, grande como o que se sente e não se sabe explicar, grande como toda uma existência que, ao fim, tampouco sabe de tudo que passou, grande como a extensão de meus pensamentos tão altos como aquela lua. Ah, que bela, mais bela que sempre, mais perto que nunca, mais quente e mais prata e mais lua.

Pensei numa cena que combinasse com todo o cenário místico e sombrio, então o peito encheu do ar, pulei da janela, voei, morri.

Muito simples, sublime, e não quero ser leve ou macio. Preciso ser fatal e cruel, agressivo e malfeito, unha encravando carne, dente lacerando pele, olhos vermelhos em ira! Quero meus pulsos jorrando sangue vermelho, rútilo, vivo, eu puro... o punhal ao lado. Pronto, tudo estaria acabado, meu fim tão intenso como sempre fui, meu momento e só meu, minha morte, tão morte de mim, tão feroz e sofrida, sofrimento doído tal fome que engole famintos, desespero que afoga aflitos. É a foice e o cutelo, meu pescoço seria norte e meu corpo perdendo-se no espaço, em pedaços inteiros tudo em mim se desmontaria, meticulosamente, cirurgicamente, tudo muito bem pensado. Meu coração, e chegaria sua vez, devorado pelos meus algozes, pela minha existência algoz e nada me restaria senão a memória dum passado e o infinito que agora seria. Não me caberia mais sangue ou carne, nem dor ou sofrimento, deixo de herança aos que ficam e que por certo haveriam de zelar meus resquícios e meus olhos cinza.

Covardia morrer assim, deixar tudo de mim, fugir enfim.

Mas a lua... a música... a brisa... o gozo... o delírio... Ah, bom mesmo morrer todo dia e todo dia...