Tenho tanta saudade de mim...

quarta-feira, abril 07, 2010

eu, menino

No tempo de mim bem menino, na pacata cidade de meus antigos, deram-me uma missão: eu tinha de ser feliz! Claro que para quem corre pelas ruas, sítios e currais, esconde-se debaixo da ponte do rio, empina papagaio por tardes a fio e se afugenta das ralhadas e safanões da mamãe entre as barras do vestido da velhinha que mora ao lado, não haveria de ser tão difícil cumpri-la. O tempo é apenas um coadjuvante no processo do crescer, sabe-se que ele está ali sempre, aliás o corpo diz todos os dias isto, mas ninguém lhe dá seu real poder, afinal, será que na infância ele tem algum?

Não sei exatamente quando me tornei adulto, não passei por um processo gradativo, experimentando irresponsabilidades e prazeres inerentes a adolescência, não! passei direto. De menino, já fui homem. É esquisito não poder correr qual dantes, mas não me conformo fácil, sempre fui audaz, quando olho o céu noturno cheio de estrelas, fujo da rispidez dos percalços diários e me deleito infinitamente por acordar no quintal de minha casa: ali, deitado no chão mesmo, imaginando quão grande podia ser o universo... Hoje por mais do conhecimento adquirido, tudo me parece ser menor e, ainda que me esforce, nem todos os dias recordo daquela felicidade a qual estaria eu fadado a ter.

Hoje quem brinca com o tempo é aquela mesma velhinha de outrora. É certo que ela não pôde abster-se das marcas físicas de quase um século, mas foi o preço que aceitou pagar por ter a mente livre. Tão livre, que dada a ousadias, viajava milhares de quilômetros apenas com o desejo do instante, visitava amigos e parentes com a mesma rapidez que durava o seu sorriso, puro, ingênuo, afinal, ela, que também teve a infância tolhida pela precoce perda da mãe, guardara todo o seu estoque de gracejos por uma vida inteira, agora, nada mais justo que usufruí-los ininterruptamente.

Ela, que não toca o chão e voa com a facilidade de um curió, as vezes cansa de fugir de sua sina e pousa perto de nós e, ainda assim, nunca perde a ternura de cada gesto e de cada olhar incompreendido. Agora, longe do calor dos seus abraços que os anos tornaram débeis, mas sempre dispostos e afáveis, tenho medo do mundo, medo de esquecer sua voz frágil e embargada dizendo que me ama mais do que a minha compreensão, mais do que eu próprio, e me outorgando a sentença: “- Que Deus te faça feliz!”

Saudades, vovozinha.

sexta-feira, novembro 20, 2009

longe

Hoje provei do desespero. Dizem que tem um gosto amargo e seco, discordo, ele só dói. Não tem gosto de nada até mesmo porque ele traz consigo a imensidão do nada. Um hiato de silêncio que grita (e já ouvi dizer que quando o grito supera o poder da palavra é que o homem perdeu a razão). Pois assim estou.

Não é o mesmo sentimentalismo barato, o furor frívole dos amores incertos ou , quem sabe, de todas as incertezas mundanas, não! é diferente, é mais pesado, metastático: um câncer. Como se todas as vísceras se entranhassem umas nas outras e perdessem toda a coordenação orgânica que permite o cumprimento do compasso tênue da vida.

É iminência de morte. Acho que chamam isso de saudade.

domingo, agosto 30, 2009

a grandeza do vazio

Ela não cabia em lugar algum.
Era opaca, bege, sem graça, sem vida
mesmo que sempre estivesse ali
não se punha em qualquer espaço vazio.
Não tinha forma definida,
às vezes grande,
às vezes vil,
às vezes sete
ou mesmo mil,
não se continha sequer
naquele canto escondido, frio.

Sua existência quieta, sutil,
inundava todos os espaços
num segundo fugia tudo que era claro
E minha paz, onde? Sumiu.


Não era questão de escolha
trazia de herança,
muitas almas,
gerações passadas.
Nascida de muitos partos:
os antigos, dolorosos
os atuais, cesáreas.
Abismo humano
 instante insano
a mulher se iguala
brutos animais
bichos no cio
surge das entranhas
a humanidade.

Se me entrego aos seus braços
não sou digno dos brios,
mesmo forte, caudaloso rio
destas águas devo ser fugidio.
Seu nome jamais atrevo
não por medo,
é que se pronuncio seu nome
seu significado insone,
faz meu corpo jovem em senil.

domingo, fevereiro 08, 2009

vai

Para quem é livre e, simplesmente, parte...

Depois de cantar tua liberdade, estou aqui cantando tua despedida. Não por acaso demorei em me expor aqui. É que ando provando muita amargura da vida, tenho tomado o cálice do fel de meus inimigos então cansei e decidi também ficar um pouco egoísta. - Não! Uma trégua ao menos! E sumi. Mas agora que o abismo se abre, dois corpos unidos pelo tempo irremediavelmente se separam pelo espaço. E por isto, somente por isto, estou aqui novamente.

Não tento encontrar palavras certas agora porque elas não prestam e são promíscuas; falam de amores e descrevem a loucura. Elas pouco se importam com quem as usa: elas chegam, fazem a explosão bombástica e depois somem. E eu que sofro aqui, solitário, sem elas. Melhor calar. É que o que sinto não sei dizer assim fácil e mesmo se soubesse, nunca o diria, é só meu, é meu termômetro, afere a intensidade de vida que ainda resta em mim. Por isso sou silêncio.

Mas não devo e nem vou te deixar ir tão fácil assim, mesmo que já tenhas cortado os cabelos e o medo que te prendessem tenha fenecido, ouso te dizer que ainda tens nos olhos o mesmo brilho e a mesma paixão de sempre e por isso, em parte, continuas pertencendo a mim. Ainda que agora seja em definitivo (e creio nisto), que a distancia seja infinda e que demore eu sentir de novo a ternura do teu abraço e o teu amor de irmão, eu permanecerei sempre bem aqui, quieto, parado, e em mim... Talvez um dia, quando o teu desejo de morar a beira da praia, de aprender a surfar e de deitar na areia no final da tarde volte avassaladoramente à tona, eu sairei de mim e estarei em ti. Mas agora não posso. E mesmo morrendo um pouco, hoje tenho coragem de te dizer vai...

sexta-feira, janeiro 02, 2009

crença

Eu acredito em você...
Palavras correm soltas
Esmagam esperanças
Matam
Mas acredito em você...
até o final

domingo, dezembro 28, 2008

ainda sou teu

Tombei. Procurei na Torre de Babel dos são um valente e ousado aventureiro, preguei meus olhos no primeiro degrau. Entre psicotrópicos e narcóticos tentei desobstruir minhas retinas e lá estava eu, cego. Não adiantou colírios alucinógenos, a realidade sempre vira a tona. Não que tenha sido a primeira vez que isto me ocorrera, já havia morrido outras vezes sim, aliás desde quando me descobri adulto e adúltero de meus sonhos que as sombras nefastas da solidão me perseguem. Na bagunça do meu coração eu perdi o leme da razão, o senso do correto e lá estava eu no chão mais uma vez. É que nunca me ensinaram a amar, nunca soube bem o que é isto; mas se amar, como cantam poetas e boêmios, é sofrer avassaladoramente a ausência de outrem, então amo desesperadamente. Pena que descobri tão tarde...

E na fraqueza dos meus dedos e na fragilidade do meu coração, pus meu pescoço à mercê do algoz carrasco. Seu cutelo já macula de sangue minha pele. Mas se é indignidade desnudar a alma, assumir a culpa e se entregar ao castigo, sou o mais indigno de todos os homens. Não aprendi a mentir ainda, não me deram tal capacidade. Não que eu ache que a dissimulação seja o melhor caminho para se manter sempre intacto, mas dizem que se sofre menos. E não quero crer...

Mas se mesmo na indignidade de minha alma, na cegueira de meus olhos e no vazio da solidão consigo preencher meu ser de felicidade quando vejo o brilho dos teus olhos e sinto a ternura de tua mão, e se mesmo embaraçado por minarem de mim lágrimas de tão pulsante e cálido desejo de te ter ao meu lado, ainda luto para devotar tal sentimento a ti, é porque ainda sou teu.

quinta-feira, julho 03, 2008

Simples

Para quem é simples

Eu tenho tanta coisa pra falar, contudo minhas palavras são mar, apesar de profundas, por ser água, também afogam. Então calo. A ternura do teu olhar pequeno, um colosso avassalador no peito; e por andar apaixonado, temo perder a compostura, não conter em mim, e mais uma vez calo. E poderia até mesmo escrever sobre teu beijo, mas como descrevê-lo seria transcender todo o vernáculo e mesmo assim chegar apenas no incompleto saber, então eu paro.

Tenho andado mais leve que o habitual, não que minha dieta tenha feito algum efeito, a alma é que voa mais alto e carrega consigo o resto que sobra de mim. Talvez assim eu tenha estado aqui e longe, em mim e em ti. Fecho os olhos e possuo o mundo inteiro, nele encontro o calor de tua pele, a suavidade da tua mão, a tua língua; adormeço todos os dias assim; teu abraço, meu cobertor.

E como não se pode compreender a intensidade das sensações quando a cronologia dos fatos é tão recente, descarto os ponteiros, eles não têm me trazido muita felicidade; tu, sim. Imagino muitas descobertas além, mas me contento com o agora. É que o simples apenas se vive e pronto.

quinta-feira, maio 15, 2008

ele vai morrer

Ele era feio, pequeno e indefeso. Seu destino já havia sido traçado. Ele vai morrer. Não de morte natural, daquelas que diariamente guardamos a expectativa silenciosa de sua chegada. Seria premeditado, ritual macabro quem sabe, cruel ou não, mas lhe tirariam a vida.

Era Muchipiran Kappó, era indiozinho, era portador de paralisia cerebral. Muchi, como carinhosamente era chamado pela cunhã, sua mãe, foi parido no meio do mato, depois de três dias de dores, nasceu ao contrário, como precocemente tudo na sua vida já era, primeiro vieram as nádegas, depois o resto. E Muchi se tremia mais que os outros curumins de colo, por isso o trouxeram para a capital. Puseram Muchi num prédio alto, num quarto com mais uma criança e lá prenderam os pais abnegados. Tanto zelo se ouvia pelos corredores, mãe de Muchi dizia pra todos que passavam: “Não quer levar Muchi? Leva! Leva!”. E Muchi permanecia com seus espamos e ladeado de promessas. “Tenho quatro filhos, Muchi diferente, Muchi vai morrer”, dizia o pai.

Passaram dias, semanas, infundiram líquidos, drogas, mas nenhum elixir vital que trouxesse Muchi para longe de seu triste fim. Médicos, enfermeiros, estagiários, todos postergavam alta hospitalar de Muchi, mesmo que nada mais pudesse ser feito por ele e mesmo sabendo que ao voltar a sua aldeia, não importasse quando, seria enterrado vivo ou deixado no meio do mato sozinho.

“É cultural, minha filha, mande Muchi cumprir seu destino”. Disse a chefe da pediatria para a médica assistente. Foi a sentença final de Muchi. Foi uma manhã clara. A médica ainda deu as orientações sobre a medicação que deveria ser administrada em casa. Foi ouvida com bastante atenção. E levaram Muchi...

quarta-feira, novembro 07, 2007

ele o odiava

Ele o odiava. É que não conseguia perdoar facilmente sequer seus erros... tampouco os alheios. Há dias sentia-se atormentado com a idéia da traição, há dias habitava em si uma fúria maior que a habitual. Não que já não tivesse qualquer dúvida, é que simplesmente não era dado a intuições, a sensações inexplicáveis, coisas de gente de pouco racional. Sentimentos eram para si apenas a expressão corpórea de demandas cerebrais. Amar era unir rotinas, hábitos, inclinações. A desconstrução desta forma geométrica bem acabada na qual se pautara suas relações e seus relacionamentos era a manifestação de sua ira. Tal como agora. Amar e odiar, tão próximos, que somente naquela noite, com aqueles olhos marejados, o mar ao lado, o vento no rosto e o sabor de sua língua, descobrira que de fato o odiava.

Foi um encontro casual. Apenas troca de olhares. Um, verde, outro, sombrio. Palavras, dispensáveis. Logo roçaram os narizes e trocaram saliva e secreções. E então estavam juntos pela eternidade de suas vontades. Suas vozes foram ouvidas uma semana depois, não que fosse isto uma arbitrariedade para permanecerem unidos, foi questão de curiosidade apenas, afinal suas mãos já falavam por si e seus dedos já aprendiam a anatomia do outro enquanto os olhos se perdiam em gozos, estrelas e silêncio.

Então a notícia. Veio por telefone, por uma mensagem e uma bomba-relógio. Explodira fraco. Morre-se pouco por estes tempos, não há tempo suficiente para mortes verdadeiras. Mas digamos que ele tenha morrido um pouquinho. Tão frio e sombrio quanto seus olhos, depois, pegara a prova ilibada do adultério, entregou ao impostor e lhe deu a sentença da mudez, da surdez e da insensatez. Foi-se... Três semanas depois, sem qualquer razão, foram a praia. Era noite, ventava muito, beijaram-se, nunca mais se viram.

terça-feira, julho 31, 2007

você me faz sofrer

Você me faz sofrer... Quando me invade com o seu olhar sereno e me despe no momento que seu brilho me ofusca a razão, você me faz sofrer. Não que haja pouca verdade em seu olhar, é que já não consigo estar longe dele. Quando em seus braços me refugio e o calor do seu corpo arde em meu peito, eu calo. É que meus dias fizeram minha mente clara e meu corpo tão pálido e frio que tremo em pensar me afastar de sua chama, então você me faz sofrer. E os segundos cruéis que passam no seu relógio tomam a velocidade supersônica de minha agonia e me roubam de você, levam de mim a possibilidade de um amanhã e mesmo que sempre soubesse que tudo não poderia mais que efêmero ser, ainda assim, você me faz sofrer.

É que ando desacostumado com certos sentimentos, certas sensações. Sinto seu cheiro e imagino parar o tempo. Já sequer consigo descrever a avalanche de emoção que me faz o simples toque de suas mãos, o coração acelera e a mente pára. Sou presa fácil. Tudo que construí de fortaleza pelos tempos infindos de guerra com meu passado explode como um vulcão no instante que sinto seu beijo, o roçar de sua língua, e me traz à tona tudo de mais cálido e vermelho que meu corpo se negava a sentir por séculos. E me faz alto, vivo e pulsátil. Tão dono de mim, tão livre, que sinto como um barco que se entrega à bravura impiedosa das ondas do mar que ao mesmo tempo alimenta e mata, resfria e afoga, e vicia.

E quando arranca de mim o delírio maior, meus músculos rijos, a carne fogo, tudo de nobre perde sentido. Não há razão para nós. E mesmo que os corpos quentes estejam plenos de prazeres mundanos, ainda lá encontro o seu olhar, seu abraço, seu cheiro, seu beijo. E, por fim, você me faz sofrer. E me faz feliz.

domingo, julho 15, 2007

amores e aspirinas

Certo dia, ouvi de ti que ma amava. Acolhi as palavras, não cheio de felicidade ou excitação, mas as guardei com calma, como quem recebe um livro bonito e o põe numa prateleira esperando sua hora de ser saboreado. Assim fiz com o seu amor. O fato é que não costumo acreditar no amor que corre suave pela boca. Amor dá trabalho, amor cansa. Ele só é real depois que sofre todas as iniqüidades do mundo, todas as atrocidades das pessoas, todo o horror dos contratempos. Ele só presta bem velho, bem barbudo e sôfrego, quase morto. Não digo que sejam irreais os sentimentos que geralmente as pessoas nutrem umas pelas outras e que vêm e vão ao sabor dos desejos, eles só não deveriam ser chamados de amor. Este movimento ondulatório carreado de secreções e outras camadas de gestos e intenções nada puros é apenas tesão. E não condeno que as pessoas pautem suas vidas pelo tesão. Ao contrário, antes ter ouvido que me tinha tesão, o mais carnal e lascivo que pudesse existir e não vir a confundir com algo que temo ser tão distante de mim.

Preferir o corpo à alma. Ele sim traz calor e geme e goza. Não inventar o sublime. Alma, amar, ao mar, tudo isso é pra quem tem tempo. Eu não. Melhor uma rapidinha. Neste caso a cronologia é relativa. A transa não está longe do sarro, do namoro e até mesmo do casamento. Todos são rapidinhas. A todos se atribuem a mesma imoralidade crua e a indiferença alheia. Neles o amor não dura além do sexo rijo, das cavidades úmidas e do roçar das pernas. É hedônico e mundano.

Mesmo assim, apesar da grossura de minhas palavras, guardei o seu amor. Ele ainda está lá, quieto e empoeirado. Talvez um dia ele envelheça como um bom vinho. Enquanto isso embriago com o álcool barato. A ressaca, duas aspirinas.

segunda-feira, novembro 06, 2006

o dia que os anjos nascem

Ele decidiu acordar mais cedo. Não que houvesse alguma obrigação a ser cumprida. Decidiu apenas ver o sol nascer e assim fez. Sempre fora assim, decidia ao acaso seus caminhos e os percorria. Não acertava algumas vezes, mas jamais negava o desejo do coração. Era supersticioso. E apesar de todos os sinais apontarem mais uma manhã trivial, sentira que aquele seria o seu dia, como se sua vida fosse todo aquele instante e todos os gestos, por mínimos que seus músculos fizessem, tomariam explosivamente a vastidão do infinito, marcando a sua existência tão fugaz e efêmera até então. Talvez pudesse sentir um quê superioridade em seu devaneio. Mas na verdade sabia que apenas amava, amava tanto que desejava seu corpo unir ao mundo, seus recônditos, sua lama e seu esplendor, sem escrúpulos, sem medo.

Era só. Fisicamente era. Nenhuma paixão carnal relevante, nenhuma semente ou herança, nada. Tristeza não combina com solidão. Não para ele. Feliz é ser livre e isto ele o era. Tão livre que era dado a risos em velórios, mas não porque era sádico, via apenas as coisas diferentes. Por ter as pupilas coloridas quiçá pudesse descrever todas as cores jamais contempladas que por certo os raios inatos do sol desenhariam no céu aquela manhã.

O breu do horizonte já se tornava tênue. Não demoraria muito o momento que tanto desejava. A aurora pouco tardava a surgir naquela cidade equatorial. Tudo era muito dinâmico por lá e se qualquer um parasse um pouco e suavizasse suas ondas elétricas mentais, até o movimento de rotação da terra seus pés poderiam sentir. Então veio a luminosidade policrômica da manhã. Chegava a ser grossa e pesada. A brisa marítima acompanhava a velocidade da intensidade do brilho do sol que crescia a medida que este invadia toda a cúpula celeste. A sacada já não era suficiente...

E quando suas retinas cegaram com a atômica expansão da luz, a brisa fez-se tufão e os braços do rapaz eram asas. Um anjo pálido, taquicárdico. Pulou do décimo quinto andar. Morreu de traumatismo craniano.

sexta-feira, setembro 08, 2006

holocausto

Eu tenho tanta pena de morrer, de deixar tanta coisa... Outro dia uma tal de espírita veio me dizer que era bobagem pensar assim, que lá do outro lado existem coisas melhores. Mas não pra comer. Eu aposto! Ninguém come lá. Onde já se viu dizer que alma come? Eu acho que é por isso que tem tanta alma penada pelo mundo afora, todas com fome, coitadas... Eu me lembro dos tempos de menina que mamãe fazia uns cozidos tão bons, papai trazia caças pra fazer paçoca e assados. Mas depois de velho ninguém mais se governa. Nem mesmo o que enfio goela abaixo eu determino. Um batalhão a me apontar um monte de armas a começar pelo meu médico da pressão. Ele não come nada insosso. E fica jogando piadinhas dizendo que eu sempre ando muito zangada. Se eu comesse, ah, até que seria mais alegre. Minha filha, a discípula do holocausto. Nunca vi tanta tortura. Todos comem diferente de mim, aliás eu sequer como, eu engulo apenas. Nada de paladar, nada de satisfação. Sexo sem prazer. Antes de minhas carnes caírem eu até teria um consolo, mas agora, velha, além de tudo viúva... Melhor nem pensar nestas coisas, é pecado. E dizem que minhas taxas aumentam, só minha paciência que não. E reclamam “faça exercícios”. Trabalhei a vida toda cuidando de menino atentado e lavando roupa de marido. Eu mereço descanso! Nem isso, nem isso... Fazer que eu caminhe feito idiota pela praça da cidade. Acho que fazem de mal, só pra eu ver o sorveteiro, o pipoqueiro e a mulher do churrasquinho... Eu já nem fico tão aborrecida, eu como escondida depois e pronto. Eles descobrem tudo, eu sei, mas aí ninguém vai me tirar a comida fora mesmo. E nem adianta ralhar, eu sou surda. Uma das vantagens da velhice: a surdez oportuna. Tratei de ficar surda logo, é bom, ajuda. Só não aceito que digam que sou broca. Sonsa, talvez. Sempre gostei da Capitu, seus olhos dissimulados. Os meus, iguais. E minhas netas nunca entenderam como ser. Por isso estão todas encalhadas. Na idade delas eu tinha até anel de compromisso e as minhas carnes eram fartas, não era mirrada. Elas não comem sarapatéu todo final de semana como eu fazia. Nenhum viço... E ainda chamam de moda. Dizem que os rapazes gostam assim. Mentira, homem não pensa além do que está entre as pernas. Até isso eu já compreendia e estas tontas ficam se matando por uma coisa vã. Vai entender essas meninas. Melhor mesmo ficar quieta com meus comprimidos. Um dia aprendo. Um dia... Espero que não demorem para o almoço...

a viagem sem frito

E lá vinha a velha com seus peitos enormes. Duas melancias. Não sei como aquela pobre criatura conseguia forças pra ainda arrastar o corpo com aquelas duas montanhas adiante. Era descomunal. Tentava de todas as formas mudar o foco de minha atenção, mas era maior que minhas possibilidades. Deus, como eram grandes...

- Bom dia cumpade.

Ela insiste em me chamar de compadre. Que mania! Os filhos dela são todos mais velhos que eu... Costume do interior. Vá entender.

- Bom dia comadre, como anda?
- To indo como Deus quer, né?

Deus não haveria de estar muito contente com ela. Afinal, que sina, que sina... Quinze filhos, três mortos, um marido alcoólatra, e ainda aqueles dois despropósitos da natureza de quase cinco quilos... Ela há de ser recompensada noutro plano.

- Passei na frente de sua casinha, a senhora tá reformando. Gostei de ver...
- É cumpade, sabe como é, eu recebi um dinheirinho da morte do meu fio... Um tal seguro. Aí comecei a casa, tem duas salas, dois quartos, uma cozinha, uma salinha pros meus santos... Mas tá faltando um bocado coisa, sabe?

É sempre assim, eu pago pela minha boca... Agora tenho certeza que ela vai pedir algo. Diaxo. Mas desta eu me livro já!

- Pois é, comadre. Mas a gente vai fazendo as coisas aos pouquinhos. Devagar que a gente consegue, com a graça de Deus.

Ufa... Com a graça do teu Deus, mulher. Valei-me de ter um Deus que permita que além de sofrer todas as atrocidades do mundo ainda ter uns peitos daquela extensão? Acho que estou ficando obcecado... E o pior! Ofereceram a ela uma cirurgia plástica, mas ela não quis. Vê se pode? Quanto mais eu penso, menos entendo a cabeça desse povo. Eu hein...

- Mas comadre, a senhora tá abatida... Os olhos assustados. E esta perna?
- Ah, cumpade Zé eu nem lhe conto...

Melhor mesmo não contar. Argh! Detesto ser chamado de Zé. Mas tudo bem, um risinho amarelo sempre disfarça. Fico até com vergonha de chamar atenção frente tamanha tanta humildade daqueles olhos. Um final de novela seria menos comovente. Está bem, está bem, pode chamar de Zé sim. Vá, continua...

- Eu furei meu pé num prego, sabe... Deu uma tal de isi... isi... isipela, né isso?
- É mesmo comadre. Mas a senhora procurou médico?
- Tomei uns bióticos. Umas piulas... Tô ficando mió. Mas eu cheguei a pensar que tava pertinho d’eu fazer a viagem sem frito...

Viagem sem o quê? Estes caboclos têm umas expressões... Deveria ter dicionário. Frito até ainda vai, eu bem sei o que é, mas viajar sem frito... Af, melhor deixar quieto.

- Ah, ta certo comadre, compreendo. Um abraço pra senhora. Já vou.
- Sim cumpade, tenho tanta vontade do sinhô me dá um foto seu. Eu rezo tanto pro sinhô merecer tudo de bom, cumpade Zé. Um foto linda. Me dá?
- Eu vou providenciar, senhora. Prometo. Até logo.
- Inté siô.

Esperei um pouco antes de seguir caminho. Fiquei olhando... E lá ia a velha, manca, redimida dos pecados que por certo eram ínfimos ante tanto sofrimento talhado em seu rosto. Nunca mais vi a comadre. Sumi. Nunca mandei retrato, nem coisa alguma. Eu que pensava que ela iria me pedir mais. Pediu tão pouco e mesmo assim eu não retribuí. Ela que merecia ser feliz...
Tempos depois, voltando de férias, disseram que ela tinha feito a viagem sem frito. Compreendi tudo então. Comprei algumas flores e fui ao seu encontro.

fim dum velho que sempre andava pela praça no fim de tarde

Ele era feio, mas não era qualquer coisa medonha que pudesse ser comparado ao esquartejamento duma vaca, era pior. Era pior. Por isso morreu... Morto ninguém mais poderia ter sua feiúra motivo de escárnio. Morto ninguém saberia, mesmo que em vida ninguém realmente soubesse dele, agora nota-lo seria no mínimo improvável. Melhor assim. Durma em paz...

domingo, junho 25, 2006

o riso e suas artimanhas

Feliz de quem me ama. Só amo um; e rio para muitos.

Meu riso é tão grande quanto o amor dos outros. Amo para sofrer, mas nunca deixo de rir. E me amam. Eu, nem sempre. Quando a tristeza do outro rasga o peito, tenho sempre o amor de um cultivado pelo meu riso. A solidão me apavora. O remédio: rir.

Deixar de amar dói. Demora. No processo sempre me perco na ilusão da volta e pronto, estou no ponto inicial. Mas quando tudo se perde na imensidão do tempo e as coisas do passado e suas repercussões já não me fazem correr para um colo estranho que me espante o ser sozinho, questiono as lágrimas que em minha face correram. E o que preenchia meu vazio de sempre de fato é bem menor que os grãos d’areia das dunas áridas da solidão.

O tempo é cruel. Traz consigo toda a força do esquecimento e a avalanche da indiferença. É insidioso. E mata. Um Davi que com pedras e dentes dilacera o corpo do gigante até o instante que não há uma gota de sangue a tingir as gengivas mortais do pequeno criminoso. E perdemos os créditos das experiências. Bobagem pensar que o erro de amar jamais é repetido. Erro sempre. Errar é tentador. Seguir adiante sem pequenos tropeços é complicado. E nesta perspectiva de erros que o passado e o tempo constroem seus castelos para os quais fugimos quando a tormenta dos dias nos faz incapazes de achar saídas. E é também neste erro que tudo de mais intenso nos invade o corpo, as entranhas e nos faz vivos.

Viver num limiar de glória e abismos é o que busco. Sempre em risco, mas assim tenho o gozo pleno das coisas, dos dias, das pessoas. Sugo a energia vital de tudo que me cerca e me faço sempre jovem, capaz de admirar o meu entorno com olhos pouco dissimulados e cheios de estranhamento. No limite de mim, do mundo. A velocidade supersônica de minhas pernas e de tudo que corre pelas minhas veias me fazem ser invisível e é certo que voar fica bem mais fácil assim. Mas no momento que o chão foge de mim levando a possibilidade dos meus amores, amputam-se meus membros e minha mente. Desacelero. Paro. Então rio. E o tempo passa.

domingo, junho 11, 2006

sobre o tempo e as pessoas

Não confundir a existência com o sonho. Tornar tudo relativo. Outra noite dessas, sentado num jardim, tinha a lua bem grande clara e o mar fazendo um barulho singelo, calmo; nem ao mesmo ventava. Uma pintura real. Não estava sozinho. As conversas pareciam nem fazer falta, realmente não faziam! Nossas presenças eram diminutas ante a grandeza da natureza. Engraçado como este fato da constatação de nossa pequenez só se dá quando crescemos, enxergamos nossas limitações e nossos obstáculos, que se tornam bem mais evidentes. Mesmo quando estamos rodeados de vida, de vida humana mesmo, estamos sós. Existência egoísta. A essência humana é egoísta. Mesmo aqueles que se propõem em gestos caridosos e desinteressados buscam uma espécie de indulto à salvação, mesmo que inconscientemente. Melhor mesmo era quando se tinha a fantasia e tudo se misturava à realidade dos dias. Não sei exatamente definir quando tudo isto se perde e passamos a ser maldosos e escrupulosos com nossos devaneios. Não sei quando nos tornamos tristes.

Então, zás, num segundo, vejo tudo tão imenso, excitante e aterrorizante com meus olhos de criança. As brincadeiras, as malcriações, as impetuosas atitudes impensadas de quem apenas sonha e vive ao mesmo tempo. Gozado como às vezes desvencilhamos o passado de nossos dias e esquecemos que ainda somos aquilo que éramos. Esquecemos que ainda podemos ter os dias coloridos e mágicos. Correr de braços abertos sem medo de olhares alheios, abraçar o amigo sem a maldade hipócrita de nossos dias, ter um amor inocente, amar de longe, andar de mãos dadas, tomar um sorvete na esquina e fazer dos gestos mais simples o verdadeiro sentido da vida. Fico triste ao ver pessoas mesquinhas que não conseguem ao menos rir de seus erros, de suas falhas. Não conseguem confiar inocentemente nem tampouco dar importância para quem está do lado. A verdade é que somos criados na perspectiva da solidão. Nunca fale com estranhos! E eles esquecem que as pessoas estranhas podem ser legais também. Chegamos no instante em que tudo é estranho e deixamos então de experimentar, de arriscar, de transpor e superar nossos limites. Daí então somos adultos. Adúlteros. Traímos nossos mais puros desejos, nossos sentimentos.

Bom mesmo era quando fechávamos os olhos bem apertados e fazíamos um pedido ao cair uma estrela do céu. Quase nunca se realizava, mas nunca perdíamos a esperança. Pedíamos sempre. E esta ausência do passado não se pode tornar relativa. Uns chamam de saudosismo, eu chamo de felicidade.

quinta-feira, junho 08, 2006

queria ser poeta...

Para quem é eterno.

Queria ser poeta. Sentir as coisas somente no papel. Fugir de minhas mãos os medos. Um canal somente. Absorveria as bondades (e as maldades) do mundo, sugando pelos meus lábios as ânsias, os desejos e, bem longe do meu coração, levaria todos os sentimentos, puros ou não, verdadeiros ou não, até correrem de meus dedos, tomarem as folhas, os olhos, as pessoas, o mundo. Queria ser passional em meus livros e apenas neles permanecer a paixão, quente, vulcânica. Assim, ao fechar a capa fria, tudo findaria. Seria sempre novo, talvez inatingível, estaria inteiro tal como nasci. Profetizar o amor e nunca de fato amar. Amar por vezes dói. Melhor evitar. Cantaria um amor bonito, simples, ou tentaria fazer do amor uma coisa simples, fato que não procede. Mas seria um papel, então pode. Não queria ser bonito nem feio, queria apenas ser um nome. Não importaria mesmo como eu de fato parecesse. Minhas letras sim, estas eu as queria alvas, claras, firmes, pulsáteis, eu inteiro, nu e puro.

Queria ser poeta. Capaz de abrir os braços, sentir o vento em meu corpo e nesta sensação descrever o paraíso. Liberdade seria pouco. Estar sempre além, acima de tudo, comendo nuvens, beijando o mar, enfrentando a grandeza da escuridão feito vaga-lume. Sensibilizar e nunca ser sensível. Um ator nada autobiográfico. Minha vida de fato não seria tão alegórica e intensa como meu verbo, nem tampouco saberia cantar a alegria com minha tristeza. Poemas, uma máscara bastante conveniente. Um esconderijo bonito. Uma fuga nobre. Seria eu.

Ser rei, construir castelos apesar de minha ruína. Saborear todos os prazeres e nunca perder o rumo, como de fato perco, como de fato perdi. E quando a dor que ora invade o meu peito tomasse vida e rompesse num grito ligeiro, um desatino tiro certeiro estraçalharia o ardor e o desejo. Com sangue afogaria meus restos inteiros. No fim de tudo, porém, quando o mal nefasto morto estivesse, meus olhos brilhariam, não com lágrimas que neste instante me acolhem no aconchego desesperado da solidão. Ao invés disto, seriam lampejos ofuscantes da retina que mira o tempo e na sua infinitude encerra meus versos em poeira que o vento leva, toma espaços, impregna a alma e deixa apenas saudade.

terça-feira, junho 06, 2006

ele, eterno

Eu guardo muita mágoa em mim, dizia. Ser triste é questão de responsabilidade. Ninguém que seja alheio ao mundo e a si próprio consegue alcançar a tristeza. No máximo, a medíocre passividade das coisas, das pessoas. 

Seus olhos traziam o peso de várias décadas de vida, mas, ao mesmo tempo, a leveza da face ainda pueril fazia dele uma esfinge. Às vezes, perdido em suas divagações, a fumaça de seu cigarro me toldava os olhos. Nada era claro. Nunca fora. Sequer para ele. As coisas não tinham sido fáceis até então. "Todo fardo é pesado e ninguém carrega mais do que pode". Puro clichê. Bordão de quem aceita submisso a vida, as atrocidades. Isso não era ele. Queria ser bem mais: mudar o mundo, quem sabe, ser um anarquista... Coisa de adolescente, de espírito desbravador, coisa de menino, da vida mesmo. Queria ser gênio e não queria conhecer a morte tão cedo (como imaginava acontecer com as mentes brilhantes). Queria ser exceção. Até ali, não sei dizer se ele queria voar ou dominar o mundo, mas decerto conhecê-lo por inteiro. Não era perfeito e nem queria ser. Pessoas devem ter defeitos, limitações, medos. O seu era ser passional. Não aceitava a ideia. Não aceita. Não quer. Paixão devora, afoga, mata. Isso não! Paixão prende e ser livre sempre foi sua sina.

Ele sequer notava, mas na verdade era cheio de paixão. Quando sonhava seu futuro e sorria a beira do mar, ele era paixão. Quando ouvia sua banda preferida e fazia amor comigo ao som da música mais bonita, ele era paixão. Quando saía pela madrugada, nas ruas desertas, sob a chuva escassa e beijava à luz do poste da pracinha, ele era pura paixão. Apenas não notara.

Mais um cigarro. A noite estava mais fria que o habitual. Ventava. Fechava os olhos e ninguém podia lhe tirar o prazer de sentir a brisa nos cabelos. Gostava deles compridos. Aliás, tudo que lhe tolhesse a possibilidade de fuga era tortura, até mesmo a cadeira dum salão de beleza. Melhor mantê-los compridos mesmo, argumentava. A calvície ao menos estaria distante. Não que fosse vaidoso, gostava apenas de como estava e de como era. Num instante, envelhecer lhe parecia apavorador: em sua mente, duas décadas passariam na velocidade de dois meses. Noutro, contrapunha tudo isto. Mais velho, poderia morar à beira do mar e certamente já saberia surfar, pensava. Ah, o mar, queria dormir e acordar com ele, namorar as ondas... Ficava excitado só de pensar. Seu rosto mudava. Aquilo enchia de felicidade qualquer um que estivesse perto. Era puro. Apesar das marcas do mundo, conseguia ter mente leve, ingênua. Crianças são assim. Elas vivem intensamente, são destemidas. Era igual. A diferença era a barba, a voz rouca, as mágoas. Mas nada era maior que o desejo de ser sempre intenso. Era fogo. Queria arder sempre. O resto que fosse fugaz. Ele, eterno.

sexta-feira, maio 26, 2006

anne

Detesto o povo desta cidade. Além de tudo, mentirosos. Vocês nem sabem, outro dia meu pai veio dizendo que lhe haviam falado que ando fumando. Fiquei atônita. Não acreditei. Nunca fumo. Nunca. Indignada, deu um último trago do seu cigarro e o lançou bem longe, impiedosamente, descontando toda a sua raiva. Soltava aos poucos pelas narinas a fumaça de suas impurezas mais profundas e as misturava à atmosfera densa daquela manhã de domingo.

Seus pés delicados, nus, massageados pela areia quente da praia e a brisa morna do oceano eram um convite ao delírio. Momento de exaltação. Superior. Traz mais uma bem gelada, seu garçom. Nada de pensamentos poéticos agora, interrompeu. Gostava mesmo era de ser mundana, sem suavidades de pensamentos, tudo deveria ser prático, bem mais fácil assim de administrar. E aí, vocês vão ao show? Continuava a conversa distraída com a prima e os amigos que há pouco haviam chegado. Um que sequer conhecia, mas que se já dividia a mesma cerveja, então já era amigo. Amigo é matéria de afinidade. Olhou, gostou, pronto, já é amigo. Muito simples. Nada melhor que um bar para fazer amigos, alegre ou triste sempre você encontra um por lá para dividir uma bebida e uma vida inteira.

O dia invadia a tarde, sol quase crepuscular, meio laranja e vermelho maculando o horizonte da baía. Nenhuma conversa fazia mais sentido. Apenas palavras soltas levadas pelo vento e perdida nos ouvidos. Se houvesse alguém que por acaso declamasse um Fernando Pessoa ou discorresse sobre uma receita de bolo, nada faria diferença. Nada realmente faz diferença quando apenas se deve estar. Estavam ali e pronto, é certo que um tanto invisíveis uns ao outros, mas a presença fixa dos olhares cruzados na mesa já cheia de garrafas e dos cacos de cada um era a certeza que eles permaneciam.

Os olhos minguavam qual a luminosidade do dia. Os dela mais que os de todos, devia ser sono, ou quem sabe a morte, ou talvez vontade de sumir. Sentia por vezes estes desejos. Conseguia em alguns momentos, muito raro porém. O fato é que já era hora de sair dali, mas como geralmente não consegue se desvencilhar das coisas tampouco de pessoas, levou tudo para sua casa, exceto os cacos, estes bastavam para um fim de domingo.

Sua casa, mais conversas, nada sem intenção, apenas faladas. Os corpos caem logo pelo chão da sala. Dormem. E se vê só. Maria! Não acredito que Maria já tenha saído... Andou pela casa procurando nada, pisava o chão somente com a vontade de ter o frio da superfície lisa sob seus pés. Ela de fato era sozinha. Mesmo com todos ali entorpecidos com o seu feitiço sonífero, continuava só e sabia disso. Melhor fugir. Parou de andar, voou ainda um pouco e desapareceu.