segunda-feira, agosto 01, 2022
sobre os sonhos
a loucura e o maratonista
abraços invisíveis
para os que habitam as ruas
grão de areia
(sem título)
os jardins que trago em mim
1.000 e tantos quilômetros
pele da terra, grão
arranha tegumento mão
esquivo o olhar
debruçando teu ventre
à beira mar
me calas em vão
chão
bruto
duro
firmo meus dedos
impuros
tuas tetas tremem no atrito
dessa carne viril
gemes
gozas
e ris
atravessas quilômetros mil
e vens habitar
por segundos
em mim
Recife-PE, 03 de abril de 2022.
Haikai
Numa tarde trivial, passando ali no finzinho da Paulista (ou no começo), entrei na Casa das Flores. Gosto dali. Uma moça muito simpática me convidou para uma oficina de haikai (haiku, se preferirem). Meu espanto foi o mesmo da maioria de vocês, suponho. Nunca tinha ouvido falar no que raios era esse tal "haikai". Busquei no google pra não assumir a total ignorância e, como envolvia poesia, sentimentos, arte japonesa, topei. Há um rigor no haikai. É pra ser um terceto e há de ser observar três elementos: forma, corte e kigo (termo japonês para a estação do ano). Gostei da simplicidade do verso. É como se fosse um ikebana literário. Saí de lá um especialista em desaprender! Desconstruí e compus meus haikais abrasileirados (mas nem por isso menos líricos), como a seguir:
segunda-feira, junho 01, 2020
a brutalidade não merece título
ou amarelo
vermelho (cubano)
é do humano
a pele que pesa
séculos e séculos
a mazela
fria
da economia
feudal
é preta!
nem branco
vemelho
cinza, espelho
embaçado?
metais
pesados
a cana, o cano
da pistola
engasgado
vermelho, um tijolo
branco soldado
preto culpado
ecoa o refrão:
- Hey, people, leave those kids alone!
Pink ou George
flores ou Floyds
mortos
no chão
quinta-feira, maio 14, 2020
five o'clock
alquímicos, farináceos sentimentos
umedecem espessos
como a grossa nuvem
que embaça
a paisagem.
ali, homens, mulheres, os pequenos
todos são sedentos e silêncio.
a espreitar pelas frestas da vida
repousam o olhar primeiro
como o encontro do inverossímil.
narinas atentas, percebem?
ela agora nos força a felicidade
com notas de laranja e canela
e não há quem resista
atravessa involuntário a goela
chega no interstício
da alma do poeta.
salvemos o mundo
revolucionemos a Terra
como aqueles dedos cautos
generosos, sem dolo
amaciemos a vida
e assemos, à tarde, bolo
o menino e o mar
ir ao alto
tomar longo hausto
destravar o claustro
o cinza
banir
há de se fugir
despir-se de qualquer manto
desembaçar o vidro
do escafandro
as pupilas
de todo ser.
há de se calar
ouvir o canto
menino casto
qu’inda mora
nas revôltas
brumas
do (a)mar
o assassinato natalino
hauria-a devotado
tombava pois no terreiro
morria decapitado
ferviam água em caldeiras
ateavam-na o corpo flácido
arrancavam-lhe do couro tudo
ardia no forno, tostado
o sangue, reservaram antes
(quiçá engrossar um caldo)
daquele dado em sacrifício
de mau grado
depois, viva!
começa a festa cristã:
sua estrela maior morre bêbada
de véspera
e pagã
lira singela, Lia
seus olhos de um século
me sorriem meninos!
digo “a mim” num clamor narcísico
pois ela ri ao mundo igual
é que me toca a alma
com a calma duma brisa
e a fúria dum vendaval
e me tira os pés do chão
(ainda há chão?)
nada mais me prende,
sou liberto
encontro lá: paulos, teresas, gilbertos
e numa ciranda bonita
de cantigas puras
e duras,
nascida da dor
do belo
giramos, giramos, giramos...
entre lágrimas, a alegria
florescida nos lábios de Lia
sexta-feira, abril 10, 2020
seduzir-te
teu ventre cafuzo
sábado, março 21, 2020
viagens à nárnia
do passado do agora
com dor, abro os braços
sem ais
os termais
condor
voo mais
as penas
do mundo sinto
apenas
com dor
fecho os olhos
as películas da retina
o bico que criva o ar
rapina
minha sina
seguir abismos
com dor
condor
movo, maestro dos céus
sinto
vento pulsar tormento
é que rasgo montanhas
sedento
de lonjuras de alturas de mim
condor
sem dor
senhor
de meu fim
não mais o gozo
Não quero teu gozo de pílula alucinógena
no segundo mais-que-perfeito
de ais
finais
não!
Quero o meio
a labuta
a haste viril e dura
o suor os pelos e a pele
bruta
anda, finca o teu pendão
neste orifício tímido inculto.
Não! Não quero revirar os olhos:
dura segundos!
Não vale o ódio.
Muito mais a noite inteira
sua pupila acesa
meus poros desvirginados
gota
espessa.
Dá-me o caminho
não a vereda
grandes sertões caatingas
rompe o mato com tua foice
certeira
devasta meus latifúndios
e deixa que clamem pelo greenpeace
ou satélites russos
não há hora
segura agora
meus pulsos
e fode
mete forte
para o tempo!
vai fundo
e se atrasa pra sempre
no meu mundo.
terça-feira, março 26, 2019
a boy, one book, the train
sábado, março 16, 2019
polu(i)ção duma mente juvenil
⁃ Mente poluída!
Apreciava o nu genital
boca boceta cu pau
Dudu Bê-Bê-Cê
a puta cujo nome
primeiro ouvi
numa mesa ao jantar
vovô a farfalhar
explicara seu sobrenome
suas letras que assumem
o orifício de ofício
ao que mais dava o homem.
Dudu, Lulu, as primas
suas sinas
já compostas em telas
(Toulouse-Lautrec o fizera)
por que haveria de ser
que minha letra
não as quisera?
Não!
Venham-me todas
imundícies e glórias
tetas rijas e flácidas
membros viris
e as máximas
orgias funestas
quartos úmidos e escuros
nas ruas que todos se apressam!
Dou-lhe caras, ouso nomes
a mente em ebulição
a real poluição
é a necessária polução
das indigentes
contraditas
vedadas
ideias.