Tenho tanta saudade de mim...

segunda-feira, agosto 01, 2022

sobre os sonhos

os sonhos não se alocam no hiato das ações
eles são atitudes concretas
cotidianas
corriqueiras como o escovar de dentes
ou o tráfego pesado ao meio dia
 
eles permeiam os espaços
e desafiam as leis da física
 
indeléveis, eles não envelhecem
apenas se apuram
e
norteiam caminhos
ou simplesmente nublam
a crueza
dos dias.

São Paulo-SP, 12 de março de 2022.

a loucura e o maratonista

desciam a avenida
às pressas, esbaforidos
dois humanos:
à frente, de amarrados cabelos
loiros, óculos, tênis
enredo passo
uma maratonista
atrás, ele,
um louco desvairado

corredora e louco
a dois metros de espaço
ela corria com denodo
ele, com passos lassos
havia ali claramente dois compromissos
dela: corpo
     tempo
postura
dele, nada
(senão a loucura).

Sao Paulo, 11 de outubro de 2021.

abraços invisíveis

para os que habitam as ruas

na brutalidade humana
na crueza de rua
habitam seres vagos
humanos de estrutura
camuflam-se ao concreto
cimento de vida dura
amálgama da cidade moderna
fosso d’alma, arranhadura

na brutalidade humana
na crueza de rua,
pasmem!
dois seres vagos se abraçam
há afagos que insistem
desafiam dura rua
curam decerto algo
e duram.
 
São Paulo-SP, 11 de outubro de 2021.


grão de areia

grão
pingo de universo
gota de terra no oceano
um grão
monossílabo que preenche a boca
e demora pouco
na palma da mão
 
grão
gota de universo
pingo de terra
que se encerra
no chão
microscópica beleza
infinitas estrelas
contam mais de bilhão
chão
grão
mão
tocam-se na tarde
numa praia distante
num gesto terno
de afagar
o mundo
vão

(sem título)

é que acredito em todos os formatos de família
disse ele, meio menino.
 
sorri
 
e tive vontade de passar café
e de sentar a tarde inteira
sentindo o aroma
daquelas palavras
da bebida quente
da sua língua

os jardins que trago em mim

tem a cor das que tens em ti
folhas: ora verdes
ora carmim
visgos heras cupins
             por que há belezas
             sim
            (mesmo invadidas)
             nos meus
             confins.

kiss goobye

I may be distant
you may be not
I pause the instant
you silence’n’nod

and leave…

1.000 e tantos quilômetros

 pele da terra, grão
arranha tegumento mão
esquivo o olhar
debruçando teu ventre
à beira mar
me calas em vão
chão
bruto
duro
firmo meus dedos
impuros
tuas tetas tremem no atrito
dessa carne viril
gemes
gozas
e ris
atravessas quilômetros mil
e vens habitar
por segundos
em mim

Recife-PE, 03 de abril de 2022.

Haikai

Numa tarde trivial, passando ali no finzinho da Paulista (ou no começo), entrei na Casa das Flores. Gosto dali. Uma moça muito simpática me convidou para uma oficina de haikai (haiku, se preferirem). Meu espanto foi o mesmo da maioria de vocês, suponho. Nunca tinha ouvido falar no que raios era esse tal "haikai". Busquei no google pra não assumir a total ignorância e, como envolvia poesia, sentimentos, arte japonesa, topei. Há um rigor no haikai. É pra ser um terceto e há de ser observar três elementos: forma, corte e kigo (termo japonês para a estação do ano). Gostei da simplicidade do verso. É como se fosse um ikebana literário. Saí de lá um especialista em desaprender! Desconstruí e compus meus haikais abrasileirados (mas nem por isso menos líricos), como a seguir:

Haikai da finitude
A gota evapora-se
a medida do calor
e a vida não pode ser fria.
 
Haikai da juventude
Vês?
passou... 
 
Haikai da alegria
Naquele domingo
o sol brilhou sobre o mar
e eu vi.
 
Haikai dos dias longos
O relógio é escravo da felicidade
que o deixa correr
quando a encontra.
 
Haikai dos infortúnios
Ele queria ver estrelas
insistiu num passeio noturno
um tombo o levou aonde queria.
 
Haikai da amizade
Olharam-se por um segundo
e simplesmente
souberam.
 
Haikai para alcançar o Nirvana
A dor lhe causou felicidade,
deu-se conta afinal
de existir.
 
Haikai dos amores vãos
Perdoou-se.
 
Haikai do silêncio
(...) 

segunda-feira, junho 01, 2020

a brutalidade não merece título

nem branco
ou amarelo
vermelho (cubano)
é do humano
a pele que pesa
séculos e séculos
a mazela
fria
da economia
feudal

é preta!

nem branco
vemelho
cinza, espelho
embaçado?
metais
pesados
a cana, o  cano
da pistola
engasgado

vermelho, um tijolo
branco soldado
preto culpado
ecoa o refrão:
- Hey, people, leave those kids alone!
Pink ou George
flores ou Floyds
mortos
no chão

quinta-feira, maio 14, 2020

five o'clock

sob criteriosas mãos, os elementos
alquímicos, farináceos sentimentos
umedecem espessos
como a grossa nuvem
que embaça
a paisagem.

ali, homens, mulheres, os pequenos
todos são sedentos e silêncio.
a espreitar pelas frestas da vida
repousam o olhar primeiro
como o encontro do inverossímil.
narinas atentas, percebem?
ela agora nos força a felicidade
com notas de laranja e canela
e não há quem resista
atravessa involuntário a goela
chega no interstício
da alma do poeta.

salvemos o mundo
revolucionemos a Terra
como aqueles dedos cautos
generosos, sem dolo
amaciemos a vida
e assemos, à tarde, bolo

o menino e o mar

há de se emergir
ir ao alto
tomar longo hausto
destravar o claustro
o cinza
banir

há de se fugir
despir-se de qualquer manto
desembaçar o vidro
do escafandro
as pupilas
de todo ser.

há de se calar
ouvir o canto
(ondas de hipocampo)
menino casto
qu’inda mora
nas revôltas
brumas
do (a)mar

o assassinato natalino

primeiro, davam-lhe a aguardente
hauria-a devotado
tombava pois no terreiro
morria decapitado
ferviam água em caldeiras
ateavam-na o corpo flácido
arrancavam-lhe do couro tudo
ardia no forno, tostado
o sangue, reservaram antes
(quiçá engrossar um caldo)
olhos assassinos à espreita
daquele dado em sacrifício
de mau grado
depois, viva!
começa a festa cristã:
sua estrela maior morre bêbada
de véspera
e pagã

lira singela, Lia

à ciranda da vida que tornou nosso encontro possível.
à Lia.

seus olhos de um século
me sorriem meninos!
digo “a mim” num clamor narcísico
pois ela ri ao mundo igual

é que me toca a alma
com a calma duma brisa
e a fúria dum vendaval

e me tira os pés do chão
(ainda há chão?)
nada mais me prende,
sou liberto
encontro lá: paulos, teresas, gilbertos
e numa ciranda bonita
de cantigas puras
e duras,
nascida da dor
do belo
giramos, giramos, giramos...

entre lágrimas, a alegria
florescida nos lábios de Lia

sexta-feira, abril 10, 2020

seduzir-te

vem
agora te deita
vou sugar teus mamilos
jorrar deles teu veneno
sei que dali me condenas
me vicias
e me intrigas

vou gastar toda a saliva
que das palavras recuso
nas tuas curvas acho melhor uso
penugem eriçada
teu ventre cafuzo
estepe ocre
pele parda
tal como a maioria se autodeclara
no IBGE

envolvo tuas carnes com a língua e lubrifico teus orifícios
especialmente eles
os ouvidos
roubo agora um gemido
retesas a nuca no travesseiro
agora! este é o momento
e em ti me penetro inteiro
violo o hímen teus tímpanos
pra habitar no gozo
do teu pensamento.

sábado, março 21, 2020

viagens à nárnia

abro os braços-condor
do passado do agora
com dor, abro os braços
sem ais
os termais
condor
voo mais
as penas
do mundo sinto
apenas
com dor
fecho os olhos
as películas da retina
o bico que criva o ar
rapina
minha sina
seguir abismos
com dor
condor
movo, maestro dos céus
sinto
vento pulsar tormento
é que rasgo montanhas
sedento
de lonjuras de alturas de mim
condor
sem dor
senhor
de meu fim

não mais o gozo

Não quero teu gozo de pílula alucinógena
no segundo mais-que-perfeito
de ais
finais
não!
Quero o meio
a labuta
a haste viril e dura
o suor os pelos e a pele
                               bruta
anda, finca o teu pendão
neste orifício tímido inculto.

Não! Não quero revirar os olhos:
dura segundos!
Não vale o ódio.
Muito mais a noite inteira
sua pupila acesa
meus poros desvirginados
                                   gota
                                   espessa.
Dá-me o caminho
não a vereda
grandes sertões caatingas
rompe o mato com tua foice
                                      certeira
devasta meus latifúndios
e deixa que clamem pelo greenpeace
ou satélites russos
não há hora
segura agora
            meus pulsos
e fode
           mete forte
para o tempo!
vai fundo
e se atrasa pra sempre
no meu mundo.

terça-feira, março 26, 2019

a boy, one book, the train

The eyes stuck on the letters,
silently loud,
repel him every sentiment,
as the rails
by the train
are devoured.

sábado, março 16, 2019

polu(i)ção duma mente juvenil

Quando mais novo ateavam-me:
Mente poluída!
Apreciava o nu genital
boca boceta cu pau
Dudu Bê-Bê-Cê
a puta cujo nome
primeiro ouvi
numa mesa ao jantar
vovô a farfalhar
explicara seu sobrenome
suas letras que assumem
o orifício de ofício
ao que mais dava o homem.

Dudu, Lulu, as primas
suas sinas
já compostas em telas
(Toulouse-Lautrec o fizera)
por que haveria de ser
que minha letra
não as quisera?
Não!
Venham-me todas
imundícies e glórias
tetas rijas e flácidas
membros viris
e as máximas
orgias funestas
quartos úmidos e escuros
nas ruas que todos se apressam!

Dou-lhe caras, ouso nomes
a mente em ebulição
a real poluição
é a necessária polução
das indigentes
contraditas
vedadas
ideias.

sexta-feira, março 15, 2019

cão-de-rua

Um cão ria à beira do (meu) caminho
Sim
Os cães riem
Marginais, seus animais
indigentes, mais gente
que muitos
de nós
Sós
os caninos à mostra
Uma prece?
Um pedido?
Não
Não só um petisco
Dê-lhe de volta outro sorriso
um afago
ele gosta!
E um cão rirá no (seu) caminho
Sim
não duvide
olhe à volta
eles riem
e (r)existem.