quarta-feira, fevereiro 01, 2006

fechar os olhos

Fechar os olhos. Um jardim cinzento de inverno, calmo, e um pássaro sozinho, quieto, manso que aos poucos morre calado como que saboreando cada segundo de seu morrer. Queria bem assim um dia partir, sereno, lúcido e consciente de meu fim para então meu corpo se misturar à terra, num encontro único em que tudo invade e ao mesmo tempo se evade de minha extensão. Penso que depois, enfim, não teria mais começo nem fim, seria toda a terra, todas as plantas, todos os alimentos e todas as pessoas, parte integrante da matéria, milhões de átomos, energia pura. Ah, o que é isso que me toma e me faz sentir elevado? Tão alto, tão além, tão acima do além? A perspectiva de ser o tudo no final me traz gozo como a sensação de abrir os braços e deixar os dedos lá, bem longe, bem esticados, tesos, e o vento a correr entre mim, por mim e em mim.

Fechar os olhos. Um vôo alto e os braços em pena. Ser pássaro. E a liberdade que nunca dantes tivera enche minhas papilas dum sabor de céu. E lá fora, bem acima de meus horizontes, o silêncio explode no peito e cresce dentro, profundo e infinito, afoga e abate, corta-me as asas e mais uma vez, desesperado agora, morro, a cabeça em direção ao chão, o bico apontando o meu fim.

Fechar os olhos. Não quero ser pássaro nem jardim, nem ser livre ou alto. Fechar os olhos apenas e nada pensar. Pensar cansa. Apenas fechar, ficar ali, quieto e no fim adormecer.

Um comentário:

  1. Anônimo3:50 PM

    Meu querido José,

    seu texto lembra uma poesia q fiz há uns anos atrás. Foi num momento de introspecção plena.


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    Me perguntava: para que nasci?
    Foi outro dia que descobri a resposta
    Quando vi por detrás da janela
    Pardais a ciscar no jardim.


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    Esta poesia é tão José quanto é Camila?

    Um beijo enorme,

    Camila de José

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